terça-feira, 17 de abril de 2012

Folhetim eletrónico do viajante Joaquim Paixão Leal Filho


Conheci Joaquim Paixão Leal Filho no início deste ano e, desde então, reparei como falava dos mais variados assuntos de uma forma epistolar. Se por acaso nos encontrávamos num boteco, era capaz de dizer-me: “No outro dia escrevi ao meu pai para lhe contar que o Benfica tem uma barraca na praia de Ipanema” ou “Mandei um email ao meu irmão para dizer-lhe que aqui gordura é formosura” ou “Hoje recebi notícias da minha mãe, foi a uma palestra do Paulo Coelho, em Zurique.”

Não sendo amigos, já tínhamos partilhado várias festas e mesas de esplanada. Juntava-nos, além da nacionalidade, o facto de nos conhecermos, embora sem nunca nos termos cumprimentado, desde a adolescência. .

Um dia, na festa de uma amiga no Alto Leblon, perguntei-lhe porque falava daquela maneira, referindo-se sempre à correspondência que mantinha com familiares e amigos.

“Não me tinha apercebido disso”, comentou.

Sendo eu, há pouco tempo, editor no Rio de Janeiro, farejei ali uma oportunidade.

“Tu tens lábia e sabes contar uma história. Aposto que tens muita coisa escrita.”

“Nem por isso, além dos emails, não tenho mais nada.”

Pedi para ler os tais emails e, na semana seguinte, propus editar um livro com a sua correspondência eletrónica dos últimos dois anos. Ele disse que não, que não ia estragar papel ou matar árvores e que não via o interesse da publicação.

Uma semana após ter recusado, ligou-me e perguntou:

“E se for num blog?”

“Eu tenho um blog.”, respondi.

“Logo vi.”

Ficou acordado que Joaquim escolheria os emails e que poderia apagar nomes ou algumas referências que identificassem terceiros – mais ou menos como desfocar a cara das criancinhas nas revistas de ficção e coscuvilhice social. Todas as semanas me mandaria três emails, eu poderia não publicá-los, se apresentasse uma razão válida.

“Tipo quê?”, perguntou ele.

“Tipo serem uma merda.”

No dia seguinte recebi os três primeiros textos.

Desde Janeiro que as encomendas não param de chegar semanalmente.

Começo agora a publicar alguns desses emails.

Quando perguntei porque tinha mudado de ideias e resolvera tornar pública a sua correspondência, Joaquim Paixão Leal Filho, respondeu:

“Vá se lá saber, apeteceu-me.”

(muda de ideias amiúde e tem revelações como se fossem gases)

“E além disso os livros têm demasiada dignidade para mim. Eu preciso de bas-fond. Os blogs são o bas-fond das belas letras, como tu.”

Entre as muitas coisas que se podem dizer de Joaquim Paixão Leal Filho, uma parece-me hoje a mais evidente. Nunca sabemos ao certo quando está a gozar connosco, com a mesa do lado ou com o mundo inteiro.



Feliz Ano Novo

Santa Teresa, Rio de Janeiro, 01 Janeiro de 2012

Querido Pai,

Gostaria de lhe dizer que estou com uma daquelas ressacas que nem um bloody mary do avô Domingos ou sequer uma omelete mista da Cleonice poderiam curar, mas a verdade é que me apresento tão saudável como os velhos imortais que madrugam para correr na orla de Copacabana.

O pai não tem nada a ver com estes maratonistas da terceira idade (desculpe se lhe estou a chamar velho, mas já conta com cinco netos e duas operações de peito aberto). Isto é gente que não aceita barrigas, matadores profissionais da caloria, uma rapaziada com muito amor pelas atividades ao ar livre.

O pai, que sempre preferiu bares e casinos, talvez não se interessasse muito pelo Rio de Janeiro, mas ontem aconteceu qualquer coisa de excecional que pode alterar o meu movimento perpétuo de nomadismo. Perdi a conta dos países por onde passei nos últimos dois anos. Tudo se esgotava rapidamente, como se entrasse num centro comercial para uma sessão de compras – em vez de sapatos adquiria experiências com cogumelos nas escarpas verdes das Astúrias, em vez de joias recolhia o amor e a amizade de outros viajantes em comboios e pequenos quartos atafulhados de mochilas, em vez de eletrodomésticos, telemóveis e aplicações, colecionava a diferença, a marginalidade, o luxo como prémio e o prazer como ofício.

Ontem choveu muito. Passei o fim de ano numa cobertura do Arpoador, com vista para os fogos-de-artifício. Havia dezenas de cruzeiros na baía, milhões de pessoas nas ruas da cidade.

O pai sabe como sou praticante ferrenho da autopsicoterapia de pacotilha (o pai fuma charuto, eu tenho meus vícios), e quando, depois da meia-noite, vi as manchas de luz desbotada pela chuva em vez da pirotecnia em todo o seu esplendor de réveillon, quando olhei à minha volta e vi mulheres bonitas, copos ao alto e corpos em saldo, champanhe tão caro que nem o pai estaria disposto a pagar por ele, percebi finalmente que já nada pulsava de emoção, percebi que estava tão apagado e aquém de mim como como os fogos-de-artifício na noite chuvosa do Rio – muita pólvora e pouca chama.

Um psicoterapeuta poderia suspeitar que se tratava de início de depressão. Sei que o pai me diria para arranjar um emprego ou um passatempo (xadrez, pesca, jiu jitsu?) e que a mãe voltaria a sugerir que me casasse com ---------, mas garanto-lhe que não temos diante de nós um típico caso de spleen. Não só estou no século errado para sofrer de aborrecimento de classe, como me molestam cada vez mais as pessoas que, tendo tudo, não se saciam com nada.

Há dois anos que viajo e antes que o dinheiro que ganhámos (e o ócio a que nos entregámos) possa tornar-me indolente e queixinhas, decidi fazer alguma coisa.

A grande notícia é essa, embora não lhe saiba dizer exatamente qual será o meu propósito.

Só posso dizer que, na noite passada, saí da cobertura sem beber mais que um gin tónico e fui passear para a praia de Ipanema.

Caminhei pela areia como se atraído pelo magnetismo do morro Dois Irmãos, cujo topo estava envolto numa película de nuvens peganhentas e chuva molha parvos. Não sei como dizer-lhe o que se passou, mas (como lhe contar isto?), olhe, tive uma ereção.
Há aqui um poder no mato, uma pujança na terra, nas pedras, nas cachoeiras e no voo dos urubus.

Isto aqui é diferente. Espero, em breve, poder explicar-lhe com mais precisão e propriedade do que falo. Só aqui estou há uma semana e por agora trata-se de um palpite, de uma intuição física – a tal ereção? (Acha estranho que me tenha acontecido isso? O avô dizia que andar de pau feito era sinal de saúde e boa esperança. Mas o avô elevou essa certeza ao paroxismo anedótico: morreu num bordel das Filipinas com 79 anos.)

Talvez esta coisa das ereções desprevenidas em momentos de mudança seja apanágio da família. Há quem tenha manchas de pele que passam de pai para filho, um determinado tipo de nariz, as mãos e os pés idênticos, mas nós, os Paixão Leal, sentimos tusa caso se nos ocorra uma epifania.

Ontem não dormi sozinho, mas também não me apaixonei.

É nesta cidade, pai, que tanto tresanda a lixo como cheira a maresia, que tanto nos tolhe o passo como nos atira ao céu, é nesta cidade que ficarei nos próximos meses. Se decidir passar com o seu barco por estas margens, avise-me. Este é o meu número brasileiro 21--------, ligue-me quando quiser. Gostaria muito que percebe na pele aquilo que sinto – lembro-me agora que, ao falar-me dos seus tempos em África, me descreveu essa pulsão física para abraçarmos árvores, essa pequenez, e ao mesmo tempo pertença, se mergulhamos na imensidão do mato e do oceano; ou o clima colado na pele e os cheiros mais molhados, mais pungentes, um mundo onde se respira outro tipo de ar, o céu cor de enxofre um segundo antes da tempestade, os pássaros que soam como buzinas de camiões antigos sempre que nasce e se põe o sol (ainda não consegui descobrir como se chamam essas aves que ouço em todo o lado.)

Por agora, estou em casa de um amigo escritor. É um holandês que enriqueceu com estufas de cannabis e, como nós, escapou da crise com a conta bem almofadada. Há dois anos que vive aqui, em Santa Teresa.

Mas isso dá outra carta. Desejo-lhe um feliz ano novo. Tenho saudades, o seu filho

Joaquim

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