quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Saudades aos bocados

1.

pernoitas em mim 
e se por acaso te toco a memória... amas 
ou finges morrer 

Al Berto



2.





3.


terça-feira, 27 de novembro de 2012

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Um bom dia para um casamento




A viagem
Eram pequenas coisas que se tornavam enormes: ele a conduzir e o pai ao lado, ele a ajudar o pai a entrar no carro por causa de uma dor nas costas, ele com o total controlo da rota, o silêncio entre os dois, não uma ausência de palavras, o silêncio. Pela primeira vez o silêncio. Crescer era isso – não apenas pagar contas, ser apanhado a conduzir com os reflexos inundados em gin ou nadar para fora de pé sem braçadeiras. Crescer, ser adulto, era aquilo: ir ao funeral da mãe do seu pai, a sua avó, tratar da papelada, ser mais pragmático diante do corpo que um médico em cenário de guerra. Havia muita coisa para fazer. Ser adulto era falar com o agente funerário e com a senhora das flores. Ser adulto era ouvir, na voz do pai, a sua voz de menino, frases rotas pelos soluços, as lágrimas escorrendo na garganta. Ele era adulto, o pai era velho. Ele já não era o menino do seu pai. 
O pai tinha-lhe dito, ao telefone, “A minha mãe morreu, a avó morreu”, e naquelas palavras revisitou o seu próprio choro quando entregava um teste com negativa ou se tinha perdido numa praça de Badajoz ou quando o irmão lhe batia – ou quando o irmão não lhe batia e ele fingia-se saco da pancada, íman das atenções da casa, o filho mais novo.
Pararam várias vezes no caminho. O pai tinha a próstata danificada, demorava-se em frente aos urinóis das estações de serviço enquanto ele lia os jornais, as revistas, as legendas das páginas duplas com mulheres lambidas pelo Photoshop. Comprava chocolates mas ambicionava cigarros. Não fumava diante do pai. Nunca fumaria diante do pai depois de ter sido apanhado, no sétimo ano, com um maço escondido na gaveta das meias, denunciado pela empregada que também lhe apanhara material pornográfico. Os cigarros eram pior. Nunca se falaria de masturbação naquela casa, mas o tabaco era meio caminho andado para as ganzas, a heroína, a desgraça de uma família com as pratas roubadas. Não fumava diante do pai, não falavam de política, não trocavam ideias sobre temas que acabassem em semanas sem um telefonema. 
Encostado ao carro, viu o pai, que saía da casa de banho, a braguilha aberta, os olhos procurando um lugar seguro, tal e qual a criança perdida em Badajoz. O pai, naquela estação de serviço, avançando medrosamente para um funeral, era o mesmo homem que, depois de confiscado o tabaco, lhe tinha atirado o maço à cabeça. O pai era forte e ambicioso e arrependia-se sempre que largava um estalo. O pai precisava agora de comprimidos para dormir e tinha os olhos tão vermelhos como uma tarde subaquática na piscina. 
Entraram no carro, ele não acendeu a rádio. Não era estranho o silêncio.

Serás terra

Era um dia lindo para um casamento. O céu não tinha um farrapo de nuvens e havia pássaros. Iam a pé até ao cemitério, o pai sem dizer nada, caminhando atrás da carrinha funerária, atrás da sua mãe, encolhida por tantos anos de vida, dentro de um caixão. No final, quando a demência tudo confundia na linha cronológica das sinapses da avó, ela só reconhecia o seu filho. Não o filho com filhos, dores na próstata e três casamentos. O filho dela, pequeno, o filho carente de coisas doces, o miúdo incapaz de perceber que a mãe seria enterrada num dia lindo para se fazer um casamento. 
O pai não falou no caminho para o cemitério, mas ele ouvia a sua voz como se equipado com auscultadores de museu. Na visita guiada, o pai repetia o que lhe contara há muitos anos, quando por ali passaram num verão: 
“Esta foi a casa onde nasci.” 
“O teu avô pôs um baloiço naquele sobreiro.”
Ele analisou as mulheres no cortejo. Só uma prima em segundo grau o cativou. Depois olhou para os pés dela e ficou manso. Sentiu-se aliviado. Não queria filmes nem filhos vítimas da consanguinidade. Olhou outra vez para os pés dela. Queria ter a certeza que não era aquilo que precisava. Ouviu a voz do pai nos auscultadores da infância:
“Devia vir cá mais vezes.”
“Tens a genica do teu avô.” 
Cruzaram os corredores de sepulturas. Como fazia sempre que estava num cemitério, pôs-se a contabilizar a longevidade das vidas dos mortos: Justino Gomes (1956-98), Bernardina Ramalho (1910-78), Domingos Lourenço (1976-77). Ele sabia que todos os humanos faziam esse jogo nos cemitérios, esse exercício de perspectiva, como quando estamos debaixo de um céu estrelado ou nas ruínas de uma civilização muito antiga. 
Há anos que o pai comprara, naquele cemitério, um pedaço de descanso eterno com jardim privado e cheiro a ciprestes. Estava lá o avô, estava lá o buraco que seria a campa de mármore da avó. Fez contas de cabeça para saber a idade do avô. Nos auscultadores ouviu:
“O teu avô fumava e bebia muito.”
“Eu nunca quis fazer mal a ninguém.”
“A minha mãe morreu.”
Porque tinha estado em vários funerais, ele sabia do apogeu dramático do caixão a descer ao fundo da cova. Segurou o pai pelos ombros, beijou-lhe a cara, não disse nada. Não fosse o choro do pai, que era também o seu choro de menino, tudo seria outra vez silêncio. Ele não chorou. Ele era o pai e o pai era o filho. 

Regresso
Nessa noite dormiram num hotel na cidade mais próxima. A prima em segundo grau também. No bar, porque sabia dos poderes libertadores das bebidas espirituosas, ele pediu apenas um copo de vinho, enquanto ela sorvia Baileys com gelo em cálice largo e falava de uma série de televisão com médicos e do preço do aparelho para os dentes da filha. Ser adulto era ver ficção americana no pequeno ecrã e endireitar aquilo que nasceu torto por causa dos nossos genes. Ser adulto era ir para o quarto sozinho. 
Ela disse: “Devíamos ver-nos mais vezes, nem sequer tenho o teu número.” Por via das dúvidas, ele olhou para os pés dela. Disse: “Vou dormir, o meu pai não anda bem.”
Escovou os dentes, apagou a luz e atreveu-se na escuridão, as pupilas aumentando, procurando os objectos, o seu pai deitado numa das camas. Dobrou-se sobre aquele corpo. Tentou ouvir a respiração. Não lhe tocou. Lembrou-se como, juntamente com o irmão mais velho, fingia que a cama era uma nave espacial. Entre os lençóis, disse baixinho: “Vamos levantar voo.” Não demorou muito a adormecer.
Na manhã seguinte, dentro do carro, outra vez o silêncio. Entregou o pai na casa onde crescera. Ali seria sempre mais filho do que pai, mesmo quando tivesse crianças e elas saltassem para a piscina e houvesse festas de aniversário e Natais que seriam outros Natais. 
O pai disse: “Não queres entrar?”
E ele voltou a ser o filho.

Mantra matinal




      quero morrer
      com uma overdose de beleza






terça-feira, 24 de julho de 2012

To Boom or not to Boom


(Há quatro anos escrevi este texto sobre a minha viagem a um dos melhores festivais de música eletrónica do mundo. Foi publicado dois anos depois, na revista do jornal i, na semana do Boom. Recupero-o agora, que está prestes a começar mais um Boom)



 O Boom é um dos melhores festivais de música electrónica do mundo, capaz de trazer a Idanha-a-Nova mais de 20 mil pessoas de 80 nacionalidades. E não é apenas o festival de verão que mais se preocupa com a sustentabilidade e o ambiente. É também uma viagem, um escape da realidade. Por isso, atrai tanta gente. Na semana em que o Boom regressa, recuperamos um texto inédito de Hugo Gonçalves, escrito após o último Boom. Missão dessa viagem: perceber porque a geração global, que se preocupa com planeta, gosta tanto de drogas. E experimentar um ácido.

Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Raul Seixas

Estávamos deitados em toalhas, na relva, debaixo de um toldo gigante que ondulava sobre os nossos olhos. O pano tinha buracos, podíamos ver o céu. Num deles passou um avião. Dois riscos de fumo branco. Fumávamos cigarros de pólen, apreciávamos os vizinhos que fumavam erva ou que dormiam sestas ou que estimavam a constante passagem dos habitantes do festival, o espectáculo da diversidade humana. O lago e as montanhas lá atrás. Um homem de turbante numa bicicleta. Duas negras, com vestidos curtos, segurando um guarda-sol amarelo, de praia, como se fosse uma sombrinha japonesa. Um americano que tocava guitarra eléctrica, propagando a melodia num amplificador, música suspirada para uma audiência em estado de levitação. Perguntei ao Luís, companheiro de viagem no Boom: “Como se chama aquele pano vermelho que o gajo tem na cabeça? O mesmo que usam os sauditas.” Nenhum de nós tinha a resposta.
Pela primeira vez tinha ponderado tomar um ácido. Hesitava, mesmo que fosse uma missão jornalística, mesmo que outros profissionais do ofício da escrita já o tivessem feito e voltado do universo do LSD para contar a história. Nunca tinha tomado essa droga mas o Boom apresentava-se como lugar para experimentalismos. “Não quero ficar um dia inteiro a tripar. Gosto de controlar a cena”, disse Luís. Para nós, os ácidos eram histórias de coelhos gigantes cor-de-rosa, o receio de ter o cérebro numa fritadeira de batatas, a possibilidade de ficar do outro lado do espelho.
 Empurrei as costas de Luís: “Olha a miúda de ontem”. Ele demorou a perceber: “Quem?”. Insisti: “Vai atrás dela.”. Luís tardou a levantar-se. Ela afastava-se e eu via como o meu amigo parecia não querer ganhar-lhe terreno. Talvez tivesse vergonha. Numa lenta perseguição a pé, desapareceram os dois após a curva. Luís arrastando os chinelos na terra. Ela com um vestido azul e branco, de riscas, mostrando a delicada armação dos ombros, o cabelo loiro absorvendo a luz forte do princípio da tarde. Talvez algo de extraordinário estivesse para acontecer depois daquela curva de terra.
No dia anterior, no início da viagem para o Boom, Luís segurava o volante e contava os quilómetros nas pequenas placas azuis da berma. “138”. Mais paisagem. “139”. Um cigarro. “140”. Com comida de estação de serviço em cima das pernas, eu tentava meter ordem na ansiedade de chegar ao destino e tomar um ácido, repetindo o plano de acção uma e outra vez: “Procurar sítio, montar as tendas, dar um giro pelo festival, jantar qualquer coisa”. Lá fora, o país derretia nas janelas, a paisagem estalava com o calor. Falámos desse país das auto-estradas que nos permitia chegar tão depressa onde queríamos chegar. Eu e o Luís: filhos da classe média, filhos de pais que medem o sucesso em casas, empregos e salários. “Eu compreendo, não te esqueças que há trinta anos nem sequer havia sistema de saúde público”, disse, como se num programa de debate televisivo. “O sucesso, para os nossos pais, que cresceram num país miserável, com fome, de analfabetos, mede-se de maneira diferente”.
Mas a compreensão com as exigências paternas não chegava para desfazer o desconforto com a herança familiar e o legado do país. “Está tudo a dormir, tudo acomodado, parece que ninguém quer ser mais, descobrir mais” – Luís falava, eu falava. Numa viagem de três horas não acendemos o rádio. Mal sabíamos que ficaríamos tão longe do país real ao entrar no Boom.
Disparou a viagem. Tão rápida. Dias que iriam parecer semanas, uma epifania, qualquer coisa que muda as peças, que nos põe de pernas para ar e permite descobrir costuras que ainda não tínhamos encontrado. Passámos as portas festival. Tínhamos as pulseiras oficiais mas ainda não fazíamos parte da tribo. Estacionámos o carro, atravessámos o pó de fim de tarde, uma película que desfocava os contornos das 20 mil pessoas, de 80 nacionalidades, que cruzavam um terreno de 200 hectares, e que dançavam, comiam, se drogavam, que mergulhavam no lago, que começavam conversas com estranhos e sorriam umas para as outras. Ainda não sabíamos nada. Não tínhamos lido sequer a frase das pulseiras, o mantra do festival: “We are all. We are one”.



Montámos as tendas ao anoitecer. Comemos depressa, um prato indiano que não terminámos. Por causa da missão de tomar um ácido, tínhamos a inquietação e o receio dos adolescentes prestes a inaugurar-se nos cigarros clandestinos numa casa de banho de liceu. Procuráramos fornecedores de substâncias que permitissem cumprir as expectativas. Não encontrámos ácidos, só um grama de Mdma (50 euros). Despejámos os cristais numa garrafa de água. Comprámos mais duas garrafas por causa da desidratação provocada pela substância – tinha lido tudo o que podia sobre drogas químicas antes de partir para o Boom. Esperámos, no limite da pista, aguardando que o cérebro desprendesse a seretonina, que as pernas ficassem sem peso, que o corpo disparasse. “Já está a bater?”, gritei, por cima da potência da música, entre as pessoas que já tinham dado o salto e dançavam, por vezes lascivas, sedutoras, por vezes agitando coreografias eléctricas que pareciam concebidas por uma empresa de jogos de vídeo. Mdma: componente fundamental do Ecstasy, da família das anfetaminas, droga de amor e paz porque tudo parece agradável, a pele exulta com uma brisa, o mundo é nosso amigo, a música faz todo o sentido nas articulações. Toda esta beleza é possibilitada pelos processos químicos do cérebro, quando os neurotransmissores do prazer inundam as sinapses. Foi descoberto por uma companhia farmacêutica alemã, no início do século passado, a fim de combater o sono e a fome entre soldados. Na década de 60, foi usado como tratamento em psicoterapia. Nos anos 80 popularizou-se como droga recreativa no Reino Unido. Faz-nos felizes, é ilegal, tira-nos o sono, a ressaca pode assemelhar-se a uma depressão. 
Na pista de dança, Luís testemunhou a queda de uma mulher loira, que ficou no chão. Quis ajudá-la mas ela (lábios robustos, cintura tão estreita) não se podia erguer. Eu, o Luís e duas inglesas, Joe e Helen, ajudámos a mulher loira. Carregámos o seu corpo sem vontade própria para fora da pista. “ O que é que tomaste?”, perguntou Luís. E descobriu-se que o namorado desaparecera, que ela tinha tomado ketamina, um sedativo aplicado a cavalos e gado bovino.
Descobrimos a tenda branca, onde se cuidavam os excessos, guardada por um homem grande, enrolado num cobertor, de cabelo longo, com óculos deslizando pelo nariz – Stephen parecia um chefe índio loiro, de frases lentas e gestos místicos. “O que se passa com o homem?”, perguntou. Helen corrigiu-o. “É uma mulher, não se está a sentir bem”. Stephen abriu o caminho para a tenda e, como se o seu cosmos dependesse da providência do fogo, disse: “Têm lume?” Dentro da tenda, grande, com velas, esteiras e sons gravados que podiam pacificar assaltantes de bancos, Joe e Luís ajudaram a mulher loira a deitar-se. Então, alguém da tenda, fornecedor de paz, segurou-lhe na cabeça.
Doze horas mais tarde: o toldo gigante, os cigarros de pólen, duas negras, com vestidos curtos, segurando um guarda-sol amarelo, de praia, como se fosse uma sombrinha japonesa, o americano que tocava guitarra eléctrica. Talvez algo de extraordinário estivesse para acontecer depois daquela curva de terra ao fundo do caminho. Não sabia quanto tempo passara desde que Luís tinha saído em busca da mulher que resgatara na noite anterior. A loira da ketamina. Luís regressou e disse: “Era ela. Não se lembrava de nada”. Eu: “Nem de ti? Mas disseste-lhe o que aconteceu”. Luís: “Só saiu de lá agora. Pediu-me desculpa por não se lembrar de nada. Disse que ia procurar o namorado. Também não era tão gira como parecia ontem”. Eu: “Nunca são”.
Embora cansados não conseguíamos dormir. Falámos sobre tomar um ácido. Justifiquei-me, tinha um trabalho a cumprir: “Disseram-me que de dia é melhor”. Luís ligou a um amigo, fez-lhe perguntas sobre a quantidade a consumir, os efeitos, o tempo de duração. Desligou: “O gajo disse que ficou na praia a ver barcos passar”. Barcos que nunca existiram. Rimos. Fumámos mais um charro. Os corpos preguiçosos, uma gelatina sem ossos lá dentro. Mas começaram os problemas de logística. Tínhamos pouco dinheiro nos bolsos e a máquina de multibanco do festival esgotara as notas. Ligámos a outro amigo, que chegaria nessa noite, para trazer mais dinheiro. Queríamos comprar um ácido mas ficaríamos sem orçamento. Decidimos sacar dinheiro no multibanco da vila. Os carros no parque de estacionamento do festival, desde longe, lambidos pelo pó, pareciam um quebra-cabeças de milhares de miniaturas e o nosso era carro um brinquedo que demorámos muito tempo a encontrar.
O motor arrancou. Percebemos que não podíamos ligar o ar condicionado porque o depósito entrara na reserva. Transpirámos muito. Já no lado de fora do Boom, parámos para dar boleia a um casal. “Pré Boom?”, perguntou a rapariga. O outro elemento do casal saltou para o banco de trás com as mochilas. Lude chegara de Barcelona e tinha as amigas dentro do festival. Rodrigo apanhara um avião no Rio de Janeiro. Não se conheciam. Encontraram-se na entrada por acaso. Uniam-se para conseguir entradas. Já não se vendiam mais bilhetes para não comprometer o meio ambiente e o próprio funcionamento do festival – a organização não queria transformar os humanos numa praga de gafanhotos. Lude e Rodrigo procuravam soluções para entrar. Manifestavam o desespero de ficar no limite de algo singular. “Sinto raiva”, disse Lude. Os brasileiros iam no banco de trás, explicando como um grupo de pessoas tinha organizado um festival na outra margem do lago, com vista para o Boom. O pré-Boom era afinal um anti-Boom, garantia Rodrigo – dezenas de tendas e caravanas, mesmo ao lado do parque de campismo, que cuspiam som através de colunas amadoras. Um caos musical. Um francês parou o carro: “Ou est le petit Boom?” Pré-Boom, anti-Boom, petit Boom – um acampamento de gente que tentara chegar ao Boom original e ficara de fora.
“Uns caras saíram daqui de noite, a pé, pelo mato, e não voltaram. Quer dizer que conseguiram entrar no festival. Deve demorar umas quatro horas andando pelo campo”. Rodrigo lançou a proposta antes de sair do carro para ir buscar a tenda ao parque de campismo. Lude fez um charro para quatro pessoas. Chegara a Barcelona há seis meses para fazer um mestrado em cinema. “Lá você tem muito mais qualidade de vida do que em São Paulo onde saía do escritório de noite e passava horas no trânsito. Agora vou para o trabalho de bicicleta”.
 O charro tinha acabado quando Rodrigo chegou. Estávamos pouco clarividentes e Luís apresentou a estratégia para que os brasileiros entrassem no Boom: “Ficam um quilómetro depois da entrada e fazem corta-mato, na diagonal. Não são mais de 500 metros. Não vieram até aqui para ficar de fora.”
 Lude e Rodrigo atiraram as mochilas para o outro lado da vedação, iniciando o caminho da transgressão da propriedade privada. Despedimo-nos e entrámos na estrada para o Boom. Os 500 metros transformaram-se em mais de um quilómetro, que, para Lude e Rodrigo, se multiplicaria muitas vezes tendo em conta as colinas, a noite e o peso das tendas e das mochilas nas costas dos brasileiros.
Na escuridão, já dentro do Boom, demorámos a repousar o carro num lugar de estacionamento. Eu, que consumira demasiados centímetros do charro de Lude, disse: “Estou com uma grande moca nesta cabeça”, e entrei na corrente de pessoas que, como num carreiro de formigas em modo de vibração, se aproximava ou afastava do coração do festival: a pista de trance, sempre lotada, o latejar grave da música que nunca se extinguia, o batimento cardíaco do bicho. Quase a alcançar a tenda, disse: “Perdi a carteira”. Nota mental: fumar haxixe causa perda da memória de curto prazo – a carteira estava no carro.
E outra vez a velocidade das imagens, dos estilhaços de diálogos. Primeiro um debate junto da zona de carregamento de telemóveis. O estado do mundo foi analisado a partir do estado de espírito Boom – essa ideia psicadélica de que somos todos um, a fusão com a natureza, o despojamento material. Passou uma mulher de lenço na cabeça, parecia um chapéu, uma instalação de pano. Tinha roupa difícil de definir – uma saia, um vestido, um sari? – e nenhum detalhe que denunciasse a sua nacionalidade. Luís estava convertido ao Boom, levantou as duas mãos e varreu a atmosfera: “Vês esta gaja que acabou de passar? Não podes saber o que ela gosta, o que ela compra. Não a podes catalogar.” Luís abandonou recentemente a indústria da publicidade após dez anos de carreira, mudou-se para um pequeno apartamento junto da praia, começou um projecto ainda sem retorno financeiro, vendeu uma moto e uma câmara: “E é isso que fode os publicitários, é isso que fode o sistema que gosta de tudo definido e controlado”. Luís falou da sua irritação com uma campanha publicitária da Alfa Romeo: “Os alfistas? Os gajos que têm aquele carro? Ou tu fazes parte de um grupo controlado e esquematizado, ou deixas de existir, não contas? Isto faz sentido? Os alfistas, meu?”. E eu, guardador chato de citações, lembrei-me das palavras de David Simon, argumentista. Nesse momento, falei de uma ideia do autor norte-americano, mas fui incapaz de produzi-la com precisão. Dias mais tarde, após uma pesquisa, encontrei na internet o que disse Simons: “O leitor médio, como normalmente o define a indústria, é branco, dos subúrbios, assinante de revistas e tem dois ponto qualquer coisa filhos, e três ponto qualquer coisa carros, e um cão e um gato e mobiliário de jardim. Não sabe nada e precisa que lhe expliquem tudo imediatamente (...) Ele que se foda. Que se foda no inferno”. Nos seus anos na publicidade, Luís de trabalhar para o leitor médio.



Há muita gente a drogar-se no Boom, mas há quem queira apenas dançar ou fazer aulas de ioga ou ver concertos. Encontrei engenheiros de plataformas petrolíferas, médicos, músicos, financeiros, investigadores, jornalistas, gente que a sociedade não se atreveria a chamar freaks, pessoas que pagam impostos e criam filhos e que estavam ali para a viagem Boom, procurando fugir da máquina trituradora do dia-a-dia, prontos afundar-se numa realidade alternativa com gente de todo o mundo, montanhas e lagos e excelente música electrónica. Uns drogavam-se, outros não.
O Boom começou em 1997 e propunha-se ser um festival psicadélico Goa Trance. Cresceu e ao longo dos anos passou a ser também um evento preocupado com o ambiente e as artes. Há cinzeiros portáteis para não se deitarem beatas no chão, a água é reciclada, a organização colabora com os agricultores locais e com a comunidade, compromete-se a deixar o terreno em melhor estado que o encontrou. E há obras de arte espalhadas pelo festival, exposições, aulas de meditação. O Boom quer um mundo mais espiritual, menos ávido de consumo, mais preocupado com o planeta.      
Sentámo-nos na zona de restaurantes. O amigo, que tinha o contacto do fornecedor de LSD, ligara para informar que se aproximava do festival. Começávamos a sentir-nos parte da tribo, essa noção de pertencer a alguma coisa sem necessidade de anular quem somos. “Já fui a outros festivais grandes e metem-se todos nos copos e depois acaba tudo ao estalo. Viste algum desatino aqui?”, perguntou Luís. Falei dos habitantes do Boom, da sua falta de ansiedade de status, da ausência de juízos sobre as escolhas dos outros. Luís: “Dizem que isto é o festival dos janados. Mas esta gente talvez se preocupe mais com os outros do que a maioria dos sóbrios.” Eu: “Do que a maioria dos leitores médios”.
Tinha chegado a hora de cumprir o meu propósito. Puseram-nos em contacto com um rapaz loiro, de pele morena, que costuma correr diferentes festivais. Disseram-nos que só vendia drogas de qualidade. E a verdade é que o rapaz tinha sofisticação e cuidado no atendimento ao cliente. Uma gota de LSD na minha boca, uma gota apenas. LSD: droga química descoberta, acidentalmente, a partir de um fungo do centeio, um poderoso alucinogénico, que chegou a ser utilizado por médicos em casos de alcoolismo e disfunções sexuais, o motor da fase psicadélica dos Beatles, a chave para o mundo de Alice. Tinha lido artigos sobre o LSD, vi documentários, cansei pessoas, que já tinham tomado, para que me explicassem os efeitos. Mas cada viagem é uma viagem, disseram-me. E tinham razão.   
Três horas mais tarde, vi uma ponte com dois túneis onde parava um comboio e carros e pessoas a entrar para uma carruagem. Vi ainda gnomos e flores abrindo-se diante de mim. Tudo era novo e maravilhoso. Luís editava filmes com os seus olhos, alterava a profundidade de campo dos elementos no cenário, as cores e a perspectiva das nuvens. Eu disse: “É como se o mundo fosse todo em alta definição”. Luís disse: “Podes fazer o teu próprio filme”. Entre as três e as nove da manhã experimentámos as lentes cristalinas do LSD. O mundo já não tinha cicatrizes, apenas cores jamais admiradas, pureza, a lucidez dos mais sábios. Não me senti paranóico, não tive medo, tudo fazia mais sentido. Eu e Luís, cada um com a sua trip.
No lago, horas antes da partida, passada a fase das alucinações, mas ainda sob o efeito da comunhão com o universo causado pelo LSD, uma mulher ruiva deixou cair o pano enrolado no corpo para se misturar com a água. Enternecemo-nos com a beleza do lago e das pessoas. Tínhamos os pés inchados e cortados de tanto andar na noite anterior. Os músculos magoavam a cada movimento. “Pareço um velho”, disse. E, no entanto, algo tinha renascido. Dizem que os ácidos podem parecer uma experiência religiosa, uma janela para o entendimento, que as peças da existência começam a encaixar. Foi isso que senti.
Na noite anterior, eu, Luís e três amigos, sob o efeito do LSD, descemos uma colina, pés batendo na terra, uma formação de ataque perfurando a escuridão, caminhando para a luz, para a pulsação do centro do festival, para o chamamento da música. Eram tantas as possibilidades. Corríamos como animais pesados, algo estrondoso e belo e urgente. Cobertos de pó, estremecíamos os músculos e o chão, respirávamos fundo, avançávamos a galope, determinados, prodigiosos, inquebráveis, sem tempo, sem notícias do mundo, sem GPS, sem o sobressalto de um toque polifónico a interromper a investida – bichos primários, inundados de sangue e ao mesmo tempo tão exactos e luminosos como os riscos brancos que os aviões traçavam no céu do festival durante todo o dia. Por causa da decoração, das luzes, do lago, das árvores, da música, o Boom está feito para acolher este tipo de experiências. Tomar um ácido num quarto em Rio de Mouro deve ser diferente de tomar um ácido no Boom – We are all. We are one.
Lude e Rodrigo ligaram-nos. Tinham encontrado 13 pessoas a meio da sua caminhada pelo mato. Todos eles a caminho do Boom. Pintaram as caras de amarelo e decidiram chamar-se a equipa amarela. Foram quatro horas de travessia nocturna. Ficaram até ao último dia do festival.
Na viagem de regresso a casa, conhecedores do prazo de validade das emoções, temíamos perder tudo o que tínhamos descoberto. E, ainda assim, era muito maior o poder da alegria e do esclarecimento. Na nossa condição de bichos da terra, mas também na incomum harmonia da tribo – essa mistura de idiomas e caras e histórias – pressentíamos a hipótese de um triunfo. “Vamos lentos mas no bom caminho”, escreveu Luís, num sms, dias mais tarde. Talvez nada daquilo se repetisse, talvez fosse apenas o vapor idealista do LSD nos nossos cérebros, talvez a engrenagem recuperasse as suas peças e as metesse na ordem – um país que se desperdiça, que assobia para o lado, uma geração, ainda a meio do caminho, mas já comodamente sentada no carrossel, contente com a luzes e a música de fundo, a dar voltas e voltas, a mesma vida, a mesma vida, a mesma vida. Ou talvez fôssemos a tempo de saltar da lenta roda em movimento, rebentando a bolha, talvez fôssemos a tempo de abandonar esse culto nacional em que basta acreditar que isto chega. Mas isto não chega. Então, ao estacionar o carro em Lisboa, um de nós perguntou: “E agora?”

quinta-feira, 19 de julho de 2012

E se a morte te esquecesse




A van dispara pela Avenida Atlântica como se eu ainda estivesse numa dessas noites adolescentes em que um dos meus amigos, bêbedo e viril, puxava o travão de mão numa curva de terra. Tantos anos depois, pensei que já me tivesse escapado das corridas, da testosterona dos machos jovens ao volante e da euforia de pau feito quando se ultrapassa outro carro.

Dou-me conta que é a primeira vez que sou o único passageiro de uma van. Não há mais passageiros. O cobrador sacaneia e provoca o cobrador de outra van quando paramos num semáforo. Trocam insultos, mas é tudo sangue bom, uma forma de comunicar, tal e qual eu e os meus irmãos que temos de pregar um calduço depois de um beijo ou, pelo menos, destacar algum defeito físico - "Então cabeçudo",Tudo bem pencas" - antes de um abraço.

As duas vans arrancam lado a lado como se numa prova oficial, com direito a semáforo verde e mais de cinco quilómetros de avenida pela frente. Os cobradores portam-se como de costume: metade do corpo fora da janela, a cabeça perscutando clientes na calçada, cães de caça com pregões batidos: "Copacabana, Leme, Rio do Sul, tem vaga sentado."

Penso no que será a vida daquele miúdo que me cobrou a passagem e agora tem o tronco do lado de fora, avançando a grande velocidade. Penso quantas horas trabalhará por dia, quantos cobradores desatentos não retiraram a cabeça a tempo e foram decapitados por uma placa de trânsito ou esmagados contra um ônibus. Penso como será suportar todos os dias as horas de ponta quando as vans sobrelotadas agonizam nas filas de trânsito, com gente em pé, dobrada como corcundas, encontrando algum consolo nos celulares. 

O motorista grita, o cobrador grita, são garotos em modo diversão, parece que estamos a cavalo e vamos matar cowboys, a velocidade aumenta e dou-me conta da minha obsessão com o perigo do trânsito no Rio de Janeiro. No livro que acabei de escrever há vários acidentes de carro. Também há o medo constante dos atropelamentos, que são aliás a principal causa de morte no trânsito no estado do Rio.

Falo muito disso, indigno-me com os alarves que estacionam os seus jipes na ciclovia (quem precisa de um veículo todo o terreno na cidade?). Discuto com os condutores que não páram para os peões (aqui pedestres) atravessarem a rua, passo-me da ginja quando um táxista tenta mandar uma bicicleta para a valeta, alerto para a boçalidade dos motoristas de ônibus que permanentemente andam em excesso de velocidade e que não fazem caso dos vermelhos - há uns meses vi uma família inteira, que se prestava a atravessar a rua, ficar a meio segundo da extinção coletiva por linchamento de ônibus.

Por outro lado, há algo infantil ou de bicho primário que por vezes assoma no meu peito quando subo o Vidigal no dorso de um mototáxi ou avanço numa van numa estrada com poucos carros, como a Avenida Atlântica a meio da manhã, algo que recupera a emoção da velocidade sem o medo ou o tino aconselháveis, apenas despreendimento e vamos adiante.  


Penso em tudo isto enquanto a praia de Copa e o Pão de Açúcar se movimentam na janela a alta velocidade. Fixo-me nesta obsessão e na contradição que me provoca, penso por que motivo aparece e reaparece naquilo que escrevo. Talvez tenha sido o acidente de um amigo (que ainda está numa cama) durante a adolescência, ou o atropelamento (o meu primeiro funeral)  de uma colega quando estavamos na faculdade. Talvez tenham sido aqueles contos do Rubem Fonseca - Passeio Noturno -, em que a mesma personagem sai para atropelar amantes e desconhecidos na noite carioca. Talvez seja o contacto diário com a selvajaria que é o trânsito nesta cidade. Mas no meio de todas estas reflexões faltou-me a decisão para agir. Dizer tão somente: "Pode ir mais devagar" ou "Eu saio aqui." Não o fiz, e ainda me pus a recordar a cena da adaptação de David Fincher do romance de Stiege Larson, The girl with the dragon tattoo, uma cena que não consta do livro e na qual o vilão a convida o herói para tomar um copo em sua casa . O herói suspeita que aquele homem que o convida é o mau da fita e, no entanto, em vez de ir embora, aceita o tal whisky. Mais tarde, já nas mãos do captor, o herói ainda tem de ouvir um sermão sobre a estupidez humana, qualquer coisa como: a vergonha ou o desconforto de dizer "não" resultam em coisas tão ruins e desagradáveis como a morte por homicídio.

Mesmo recordando a lição do filme não fui capaz de pedir ao motorista que reduzisse a velocidade.

Deixei-me ir conhecendo todos os riscos.

Como são estranhos os seres humanas e as suas regras de convivência.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Diário de um ficcionista: A FLIP relatada no tempo que demora a ouvir Haitian Fight Song



Sais da editora com o sol do meio dia enganando o inverno e passas pela Lagoa para te lembrares, antes da partida, de tudo o que esta cidade já te deu. Na casa do teu companheiro de viagem falas de séries de TV, futebol e livros. Seguem por Copacabana de carro, depois Botafogo, Flamengo, a baía e os morros, as palmeiras imperiais da Paissandu, mais uma recordação do esplendor do Rio agora que vais sair da cidade, já com uma terceira passageira no carro, pela estrada Rio-Santos a caminho de Paraty.

Passas pelo porto e os teus amigos ensinam-te coisas sobre a cidade, explicam-te a geografia, são ternos e atenciosos, desativam o cliché que diz que os cariocas abrem os braços num abraço mas nunca o fecham. Só por isso, já terias ganho algo nesta viagem. Mas há mais: param para comer um sanduíche de linguiça (uma merda), passam por Albanoel, um parque de diversões, agora abandonado, com papais noel gigantes com bocarras de onde saem escorregas. Pensas se as linguiças teriam LSD mas é verdade, os teus amigos explicam que um tal Albano Reis, benemérito de Quintino, quis presentear a população com o seu delírio natalício. Um pouco mais adiante, outra espantosa obra de Albano Reis: uma cidade do faroeste americano. Também abandonada. Mas ao veres roupa estendida e quando te informam que pessoas vivem ali, pensas que o propósito altruísta de Albano escreveu direito por linhas tortas. Nesse parque de diversões abandonado, vivem famílias que, sem casa, encontraram ali uma morada com teto.

No carro, depois da risota, todos se calam durante algum tempo e Raul Seixas canta na rádio. Olhas a magnificência do verde lá fora, as enseadas e as ilhas, mas também vês as cidades de beira de estrada, uma linha contínua de edifícios, barracões, armazéns, infinitas igrejas evangélicas. Uma diz: "Hoje, 18h00, Show de Fé." Pensas se, caso vivesses ali, também encontrarias conforto na pinga de um boteco beira-de-estrada e no sermão do pastor. Talvez seja essa noção de perspetiva que dão todas as viagens mas, ao veres onde moram os fodidos do Brasil, prometes que te queixarás menos e estarás mais agradecido.

Estamos próximos e outra vez a conversa, essa excitação de chegar ao lugar de destino: Paraty, Feira Literária, aka, FLIP.

Anoitece. Após a sessão inaugural da FLIP Luis Fernando Veríssimo entrou num restaurante, não sem antes deixar passar uma senhora adiante de si, o que só prova que os homens cavalheiros e com sentido de humor ainda não desapareceram totalmente do estado do Rio de Janeiro. Inicia-se o ritual da cachaça assim que cai a noite. Será assim daí em diante, dizem os veteranos da feira, justificando o ritual da pinga com a ocasião especial e com o facto ser um produto típico da região.

Sobre a cachaça, és logo advertido na primeira rodada por quem sabe: gostinho bom, fogo manso, euforia na segunda, descontrolo daí em diante, tenha cuidado, beba muita água antes de dormir, dor de cabeça provável.

Não confirmas nem desmentes. Mas a marchinha carnavalesca "Cachaça não é água não" anda contigo como uma banda sonora.


Nos dias seguintes vês Zuenir, Cercas, Dulce Cardoso, Franzen, Alexandra Lucas Coelho - a mais elegante dos moderadores -, e palhaços que dizem poemas, hippies que cantam rock, garçons que deixam o que estão a fazer e correm e gritam insanemente pela praça quando o Corinthians vence a Libertadores; uma editora portuguesa com coragem de navegador, três editoras inglesas tão fanáticas do The Wire como tu, Luiz Biajoni, autor cheio de graça, que escreveu a trilogia "sexo anal, boceta e boquete" e um infindável caleidoscópio de cores, frases, personagens e diálogos, cenas que dariam um conto, ideias que empolgam, como se vivesses vários dias em modo de ficção. 

Vês um homem tocar piano na tua pousada enquanto escreves uma crónica. Pensas que farás anos em breve e ficas melancólico. Pensas em Lisboa mas logo Paraty te suga e pensas que o teu próximo romance se passará ali. A viagem está agora mais que ganha. Mas os dias correm e conheces um gato meigo que vem a ti como um cão, conheces mais pessoas que ouves, com quem aprendes, outras a quem queres contar o que fazes, o que te levou ali, a graça de trabalhar numa editora e escrever livros, a bendição de estar numa cidade como Paraty, a oportunidade de ver que, tal como tu, há muito mais gente que ainda se emociona com estas coisas.

No segundo dia chega Jordi, o teu brother mais recente, é como se tivesses crescido com ele. Deslizam pela cidade apesar das pedras pé-de-moleque, vão a todas, conversam como se não houvesse amanhã, trocam histórias, atiram-se para a piscina, sabem o que querem, são dois portugueses em Paraty. Embora tenham ofícios diferentes (ele é fotógrafo), Jordi diz-te: "Isto que nós fazemos não é bem um trabalho..." e faz um gesto com os braços. Não diz mais nada, mas naquele movimento é isto que lês: "Fazemos isto com o corpo todo, a toda a hora, é bué intenso."

É, é sempre bué intenso.

Talvez tenhas cedido ao misticismo de Paraty e acredites agora que certos lugares, com certas pessoas, nos mudam para sempre. Mas há mesmo coisas que te importam, coisas de que precisas: os teus amigos, o teu labor, uma viagem, uma ideia para um livro. Vieste de Paraty com tudo isso.

O bilhete de volta do ônibus só custou 55 reais.   


Língua Geral


Desde há uns meses que sou editor da Língua Geral, editora carioca que publica exclusivamente autores lusófonos, do Rio a Luanda, de Lisboa a Díli, do Recife a Maputo.

A editora está a mudar e a transformar-se e acaba de lançar o livro de João Tordo, O Bom Inverno, o primeiro título que o autor escreveu após ganhar o Prémio Saramago, com 3 Vidas, também publicado na Língua Geral.

Além disso, acabamos de lançar um novo selo, Série Geral, que pretende publicar grandes autores de língua portuguesa com preços mais acessíveis.

E estreámos novo site, que inclui o blog Língua Solta, onde escreverei regularmente e onde haverá, diariamente, notícias sobre os autores e livros bem como textos dos próprios. Para a semana publicaremos um conto inédito de João Tordo.

Se quiserem saber mais, basta clicar aqui.

Ai Portugal Portugal

Estou longe mas dói-me. Lembro-me de ouvir o John Stewart dizer, sobre a imprensa, "You are hurting us". Cito o humorista sensato, mantenho o destinatário e acrescento todos os que há décadas desgovernam o país, as empresas, os bancos, as escolas, as estradas, a justiça: "Estão a fazer-nos mal". Perante o sofrimento, ou se come e cala ou se reage. Como? Não sei. Tenho pensado muito nisso mas sozinho não sei. Sei no entanto que há um limite para quem é roubado, enganado, ocultado, calado, empobrecido e desprezado. Há quem diga que depois da tristeza vem a raiva. E essa é muito mais perigosa. Esta gente anda a brincar com o fogo.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Diário da Flip: a poesia está na rua.



“As notícias da minha morte foram exageradas.”  Mark Twain

É um lugar-comum muitas vezes repetido, mas é também uma evidência imediata para quem chega: Paraty é especial. Seja a brancura das fachadas imaculadas, seja a memória do tráfico negreiro, seja o esplendor azul do mar e verde do mato, sejam as ruas com pedras pé-de-moleque por onde circulam carroças com um vagar de antigamente – uma tranquilidade que desacelera o mundo e quem aqui chega. Paraty é um lugar ideal para se ler um livro. E para se escrever um livro.


Para ler mais, clique aqui

Dá-me um nome de rua, de uma rua de Lisboa



Amo Lisboa e o meu amigo João Tordo alertou-me para este vídeo. Um texto meu, sobre o elevador da Glória, lido na calçada da Glória, e o meu livro nas mãos de lisboetas. A pele arrepiou-se um bocadinho. De Saudades.

Pode ser visto aqui: http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2643798&seccao=Sul

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Dá-me lume



Hoje acordaste como se fosse o último dia de aulas na quarta classe ou como se fosses fazer uma viagem de comboio para praia. Saíste de casa bem cedo e o sol de inverno carioca fez as vezes do verão do hemisfério norte. Mas não havia jornais com as manchetes mais importantes do dia, não viste a inclemência selvagem de Cristiano Ronaldo captada numa fotografia de primeira página, não havia bandeiras estioladas nas fachadas carcomidas da Calçada de Santana. Antes, na tua rua, via-se o Tejo. Agora vês o Corcovado. Hoje o céu está tão cristalino como uma gota de LSD e há uma frase que te roda na cabeça desde ontem:

"Dá-me lume".

Foste dormir a pensar na palavra "lume", tão poética como prosaica, usada todos os dias em esquinas, mesas de café, casas de strip. "Dá-me lume."

Ontem falaste com um amigo, de Lisboa, que te contou como a cidade fica mais gira e atrevida nos Santos, como se namora nas ruas, os fins de tarde que se prolongam até de madrugada, manchas na roupa, pássaros despertando as praças, um pequeno-almoço numa pastelaria antes do sono e um derradeiro pedido: "Dá-me lume."

Hoje acordaste a pensar que "Dá-me lume" é muito mais que uma frase batida, que tem qualquer coisa de antigo, que condensa mais séculos que livros de História e que, de alguma forma, tem a ver com a tua agitação infantil desta manhã.

É dia de jogo e gostas que esteja sol, como se fosse princípio de verão e, mais uma vez, todo o teu dia se focasse apenas nesse evento. Nada mais terá muita importância, abandonas a vida como se saísses em andamento, suspendes o resto de ti, queres outra vez essa euforia, esse roer de unhas, o sabor da cerveja entre jogadas e outro cigarro a saltar para a boca: "Dá-me lume", dirás, sem sequer tirar os olhos da televisão.

Dá-me lume: os teus amigos num tasco lisboeta, Camões escrevendo poemas de amor, os cigarros - Português Suave - roubados e fumados clandestinamente com o teu irmão numa casa abandonada, essa inquietude matinal nos dias em que ias de férias com amigos, parando em estações de serviço para tomar o pequeno-almoço, partilhando a leitura dos jornais desportivos com os companheiros de viagem, alguém olhando para a TV da cafetaria e alertando para reportagem sobre o jogo da seleção. E alguém dizia: "Dá-me lume."

Estas manhãs de sol e jogo: é como fazer oito anos, como vestir uma camisa branca e saber que só se chegará a casa de madrugada, é como tocar na perna do amigo antes do apito inicial e dizer: "Dá-me lume."

O que eu quero é a viagem. O fogo dos dias singulares e saudosos. O lume dos poetas e o lume dos apaixonados.


Hoje, se me sinto mais menino, se percebo melhor tudo o que implica ser português e dizer "Dá-me lume", é porque é dia de jogo. E, só por isso, já devo muita coisa ao futebol.