quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Monsieur Camus e o amigo português


No aniversário do Cristo Redentor, o Rio foi tomado por um caso grave de nevoeiro londrino e até as senhoras putas, que não viam um palmo diante dos olhos em Copacabana, recolheram a casa. Pecou-se menos nessa noite. O Redentor devia estar contente, afinal de contas era o seu aniversário, ainda assim resolveu cobrir-se de nuvens, e não apareceu em nenhuma das celebrações que a cidade organizou em seu louvor.

No outro dia, nas notícias, anunciaram que uma mulher grávida caiu de um nono andar e sobreviveu. Entrevistaram-na na cama de hospital. Estava bem, o filho impecável.

E há uma semana, por exemplo, um amigo viu o Saci Pererê enquanto bebia cachaças e comia uma feijoada num restaurante do Jardim Botânico. Tinha a certeza que era ele, com aquele barretinho vermelho e sorriso trocista, aparecendo e desaparecendo entre as sombras da mata. Além disso só tinha uma perna, o que reforça o testemunho do meu amigo. Tudo bem, era noite de Halloween e havia gente mascarada, mas o que lhe quero dizer é que nesta cidade acontecem coisas estranhas. Por isso, não me espantei muito quando lhe pedi fogo e ouvi esse sotaque franciú e me dei conta que estava a falar consigo. Também vi no Facebook que esta semana fazia anos. Veio ao Rio para festejar a data?

(Foi só então que me calei. Ele já tinha terminado o primeiro copo de cachaça. Eu oferecera a primeira rodada. Ele tocou com a língua nos dentes e um silvo disparou na direcção do garçon, que olhou, esperando o pedido. Ele levantou dois dedos. O garçon perguntou: “Salinas?”. Ele disse que sim com a cabeça.)

O Waldislei é fanático do Vasco da Gama. Trabalha aqui há vinte anos. Você gostava de futebol, não gostava?

(Eu insistia em utilizar o pretérito imperfeito, como se ele estivesse morto. Mas ele estava ali, fumando cigarros de enrolar, golas do casaco levantadas, um homem bebendo e comendo carne seca na mesa do Caranguejo, um boteco de Copacabana. O meu desconforto não estava relacionado com os pormenores sobrenaturais do episódio. Se me encontrava nervoso e falador e pronto a embebedar-me mais, foi porque em tempos fui grouppie de Camus – o primeiro escritor que achei que podia fazer um road trip com Steve McQueen e que, descobri mais tarde, morreu num acidente de carro.)

E se fossemos a outro lugar?

(Entrámos na orla e caminhámos pelo calçadão. O vento desapareceu assim que passámos pelo Arpoador, o mar abrindo-se aos barcos que esperavam para entrar no porto da prosperidade brasileira. Lá ao fundo, apesar de desfocados pela maresia, estavam o Hotel Sheraton e a favela do Vidigal. Fomos avançando em silêncio, amparados entre o som das ondas e o galopar do trânsito. Camus desapertou o casaco e decidiu ir pela praia, onde arregaçou as calças e tirou os sapatos e as meias. De cigarro na boca entrou mar adentro, molhou-se até aos joelhos e saiu da água directamente para o quiosque onde pediu duas cervejas de lata. “Bem geladas”, disse, tentando imitar um carioca da gema. Sorria, por fim, o escritor. Sorriu com o barulhinho bom da cerveja assim que o dedo abriu a lata. Sorriu ao ver passar um rapaz de bicicleta que puxava uma garota de patins. Sorriu diante de um jogo de vólei de praia entre equipas femininas com calçõezinhos que encolheram na máquina de lavar.)

Se quiser podemos ir até ao Vidigal, um amigo meu vive lá, bebemos mais umas cervejas, vai rolar uma festa lá perto. Tudo tranquilo, malta do bem. Há uns quantos franceses a viver no Vidigal.

(Fez-me a primeira pergunta da noite. Seguiram-se várias enquanto caminhávamos entre o posto 9 e o posto 11.)

“Que festa é essa?”

É uma festa numa casa antiga, uma vista animal, alto jardim, e paga-se para entrar. É organizada por gente de lá, da comunidade, mas é frequentada por muitos estrangeiros.

“Caminhamos?”

Podemos ir de van.

“O que é uma van?”

São veículos para quinze pessoas que por vezes levam vinte. Basta levantar o braço e a van pára para te apanhar ou largar em qualquer lado. Tudo isso com a emoção da velocidade e o privilégio de ouvir as conversas telefónicas dos outros passageiros. Só custa dois reais e trinta. Do Leme à Rocinha. Da Barra ao Centro. E algumas até oferecem ar condicionado.

(Entrámos numa van e Camus quis pagar ao cobrador que, com metade do corpo enfiado na janela, gritava para a calçada: “Vidigal, Rocinha, tem lugar sentado”. O escritor recebeu o troco e pôs-se a olhar pela janela. Decidi calar-me. Tinha prometido que não pediria um autógrafo, que não me armaria em stalker da Feira do Livro, que não declamaria a primeira frase de “O Estrangeiro” nem juntaria as mãos gratas, informando que “A Peste” me levou a ser escritor. A fase em que eu tinha sido grouppie de Camus não era apenas resultado do pretensiosismo do rapazote adolescente que descobrira um escritor. Eu admirava Camus como admirava o Homem-Aranha, o Sherlock Holmes ou algum detective privado numa série de TV. Mais do que escrever, queria ser como Camus – o sucesso precoce e o destino trágico dos ídolos têm um enorme poder de atracção nas mentes e nos corações jovens. Eu queria ser Camus e fumar aqueles cigarros e usar aqueles casacos e aparecer naquelas fotografias a preto e branco.

A van deixou-nos na entrada do Vidigal. Saltámos para a confusão, cheirava a churrasquinho e a gasolina. Expliquei como íamos subir o morro.)

Eu pago o mototáxi. Não se importa de ir sem capacete?

“Quais são as probabilidades de ter um acidente mortal duas vezes?”

Tem razão.

(Cada um saltou para a sua moto e os nossos condutores aceleraram morro acima, desviando-se de outros veículos e animais e pessoas, produzindo em mim – e aposto que em Camus - essa contradição entre o medo da queda e a voragem pela velocidade. Entrámos na rua onde vivia o meu amigo português, comprámos cervejas de garrafa no bar do Carlão e gritei para a janela.)

Rodrigo, Rodrigo, sou eu. Ele deve estar a dormir ou a tomar banho, vamos até ao fim da rua, tem ali um mirante, vai-se passar com a vista.

(O escritor acendeu novo cigarro e afastou um mosquito da cara. Eu disse: “Cuidado com o dengue.” Ele disse: “Não será um problema tendo em conta a minha condição.” E outra vez o silêncio seguido de um sorriso. Ele abriu uma das garrafas, usando o isqueiro para fazer saltar a carica, e bebeu e sorriu outra vez, os seus olhos voando sobre o Rio, sobre as luzes do calçadão que delimitam a costa, sobre a praia branca onde ainda há pouco ele tinha molhado os pés.)

Eu não disse que era uma vista do cacete? Vamos lá ver se o meu mano Rodrigo já abriu a pestana.

(Em pouco tempo chegaram mais pessoas, estrangeiros e locais, uma mistura de idiomas e sotaques, um festa antes da festa, mais cerveja e música, o escritor dançando com uma mulata, ouvindo histórias sobre o tráfico, bebendo mais, ouvindo mais histórias, sempre atento e com a mesma alegria que mostrara no mirante. Eu olhava para ele e era como se visse um menino sábio, uma criatura capaz de deslumbrar-se ainda com tudo mas detentora de clarividência e de paz, como se estivesse drogado ou tivesse super poderes ou fosse exactamente aquilo que eu gostaria de ser. Saímos de casa. Rodrigo não trancou a porta – “Aqui ninguém rouba nada”. O meu amigo portuga, que abandonara o corporate business de S. Paulo para montar a sua micro empresa na favela do Vidigal, começou a chinelar pela calçada e explicou ao escritor a origem do nome da festa onde íamos. “Lamparina. É a festa do Lamparina mas a maioria das pessoas que lá vai não faz ideia de quem era o Lamparina. Um dia foi dormir e não acordou.” O escritor perguntou-lhe a causa da morte. “Olha, porque se cheirava desde os 14 e já tinha uns 40. Mas cheirava como quem fuma cigarros.”

Passámos em frente a um bar – balcão, três mesas e seis cadeiras na rua – e alguém comprou alguma coisa ao mulato com uma bolsinha a tiracolo. O mulato, na sua esquina, era guardado por dois brothers com metralhadoras. O escritor cumprimentou toda a gente, parecia habitante da comunidade, vizinho de longa data. O Rodrigo disse-me: “Este teu amigo é cá um ninja.”

Entrámos na festa com um desconto conseguido pelo Rodrigo, que passou parte da noite a conversar com o escritor e a apresentá-lo aos convivas. Eu perdi-me. Havia muita gente nos dois níveis do jardim. Também me lembro de um longo corredor, com areia e velas, que ia desembocar no banheiro feminino. Encontrei o escritor nesse corredor.)

Não lhe faz confusão estar numa festa, na favela, no meio de gente que podia estar numa festinha em Berlim? Não o faz pensar? Não estou a dizer que está bem ou mal, mas não o faz pensar?

(Eu queria mostrar ao escritor que reflectia sobre as coisas, que me preocupava com a existência dos outros, que tinha interesses. Ele olhou para o lado e uma mulher, negra e magra como uma pantera que faz ginástica, saiu da casa de banho para os seus braços. Deixei-os a sós. E mais uma vez ele sorriu. Sobre a festa posso dizer que tinha muitas mulheres bonitas e bem vestidas e encantadas pela música e pela vista. O escritor dançou, bebeu e flirtou. Já era quase de manhã quando voltei a falar com ele.)

Vou andando.

“Eu vou também.”

(Descemos o Vidigal a pé, a comunidade amanhecia e já cheirava a café e a pão na chapa. Meninas sofisticadas e meninas hippies desciam também, saídas da festa, cruzando-se com o ruído dos mototáxis e com as negras a caminho do trabalho na zona sul. O escritor entrou na primeira van que viu. Descemos na praia de Ipanema quando o sol, da cor da lava, aparecia sobre a pedra do Arpoador. Disse que tinha de ir ao supermercado. O escritor sacou de uns óculos escuros e perguntou: “Está aberto?”)

Está aberto 24 horas por dia. Tenho de comprar pão e água. Não beba água da torneira. Quer dizer, você deve poder beber e comer tudo que nada lhe faz mal. Quer alguma coisa?

(O escritor tinha a serenidade de um guerreiro Jedi. Queria falar com ele sobre as favelas, sobre o Rio, sobre a matéria-prima literária a cada esquina. Queria que ele tivesse orgulho de mim. E foi então que ele falou como se tivesse escutado os meus pensamentos. “Não te preocupes. Gostei muito desta noite. Não te preocupes tanto e com tantas coisas. Eu estou muito bem.” Ele sabia mais que eu, entendia mais que eu, está em algum lugar de lucidez que eu ainda desconheço. Bastou olhar para ele e percebi que não tinha de explicar-lhe nada sobre favelas ou sobre as idiossincrasias do Rio. Ele deslizava acima do meu conhecimento, fluido e silencioso como um jacto telecomandado.)

Podemos ir ali ao corredor dos doces? Tenho uma cena inacreditável para te mostrar. Quando vi isto pela primeira vez os meus olhos quase saltaram como nos desenhos animados. Vê bem isto e tripa. Ovomaltine para barrar no pão. O Brasil no advento da inovação. Felicidade pura e à colherada.

“É isso aí.”

(O escritor abriu o frasco, enfiou o indicador lá dentro, e lambeu-o.)

“É isso aí.”

(E depois voltou a sorrir.)

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