quinta-feira, 19 de setembro de 2013

"Vai roubar para a estrada"




Uma família chega a um café de Albufeira na confusão de agosto, o pai olha os preços inflacionados pelo verão e diz: "Vão mas é roubar para a estrada".

O reformado acaba a sopa do jantar e, diante da notícia sobre o aumento dos impostos, ordena ao primeiro-ministro na TV: "E se fosses roubar para a estrada, pá?".

O condutor, mandado parar por excesso de velocidade, entra no carro depois de assinar a multa e, quando o polícia vira costas, diz entredentes: "Vai roubar para a estrada" - o que, de certa maneira, é desnecessário, uma vez que o polícia já está a roubar na estrada,

Sem conseguir encontrar a origem desta expressão portuguesa, pus-me a pensar em qual seria o seu sentido inicial. Foi-me sugerido que a frase se referia aos tempos em que bandidos atacavam diligências. Contrapus que Portugal não era o Texas no século XIX.

É verdade que, tendo em conta as portagens ou os preços nas estações de serviço, se poderia deduzir que seria coisa de concessionárias de autoestradas e postos de gasolina, mas esse género de furto é demasiado recente para ter originado uma expressão tão antiga. O fulgor próspero do asfalto e pastéis de nata com preços trufados são coisa das últimas décadas.

É verdade que certo tipo de prostitutas trabalha na estrada, mas o que fazem é mais um serviço à causa dos camionistas do que um assalto com direito a "final feliz".

E seria esticar a corda se dissesse que o carjacking começou um dia quando, farta de ser roubada entre paredes, uma vítima sugeriu "E se fosses antes roubar para a estrada" - não só o meliante obedeceu, como descobriu uma nova prática de crime com nome estrangeiro.

Mais do que a origem, afinal, importa o golpe que a frase aplica no destinatário. No fundo, quer dizer "Sai-me da frente, põe-te a milhas, na alheta, baza, vai morrer longe, porque aquilo que fazes não tem lugar no sítio onde eu vivo". E verte desprezo, espirra indignação, anuncia o vigoroso desejo de que, roubando na estrada, aquele bandido não só esteja longe de nós como, afortunadamente, seja atropelado por um caminionista que se distraiu com a coxa grossa de uma mulher da vida. 

ps - nas próximas edições, a expressão brasileira "E daí?" e a portuguesa "Foi pro maneta."

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Conde de Monte Risco



Não sei se ando demasiado afastado dos mecanismos de vingança para pensar desta maneira, mas julgo que já ninguém risca carros – com uma chave (a namorada despeitada), com um prego (o aluno chumbado), com uma garrafa partida (o despedido bêbedo). Talvez a distância das salas de aula, das relações psicóticas e de patrões abusivos não me permitam ver que, por todo o mundo, ainda há quem apure, com requinte e malícia, o ancestral engenho humano da vingança.

O castigo de uma pintura arranhada vai muito além dos danos na chapa e das despesas subsequentes. Primeiro, há o momento de ultraje. Mas a punição maior prolonga-se. Não são os riscos – é aquilo que sugerem. De cada vez que alguém entrar naquele carro ou passar por ele na rua, poderá questionar-se que acto vil, do proprietário, terá feito alguém sair de casa, procurar o carro, arriscar ser apanhado, para cravar uma chave bem fundo – como uma adaga nas entranhas de um imperador.   

Os riscos, por mais injustos que sejam, implicam uma malfeitoria do castigado, e, mais que tudo, garantem ao vingador um prazer que só pirómanos, drogados e trapaceiros alcançam.

Tudo isto para dizer que, ontem, ao ver um político português num programa de notícias, tive uma enorme vontade de pegar na chave, sair de casa, apanhar um avião, aterrar em Lisboa, descobrir o carro do senhor e, espetando a adaga mais longa, sentir-me saciado – não tanto como Brutus, mais como Dirty Hairy.

E depois ia comer um folhado de salsicha e beber um Ucal numa pastelaria de esquina, pronto para, nessa noite, dormir como um bebé untado em morfina

  

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Boys will be boys


Se uso um casaco com capuz, num dia de chuva, imagino-me sempre mais perigoso, como se estivesse a seguir alguém ou andasse clandestinamente em fuga. Mesmo quando, como ontem, era só para ir ao quiosque comprar um livro do Homem-Aranha.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Série cara de pau é como o universo, não acaba nunca



Governador Wilson Martins, do Estado do Piauí, tinha orçamento para gastos domésticos de 6 milhões de reais, que incluía lagosta, máscara para pontas quebradas e meio litro de champô a 85 reais... Imagino que para a barba metrossexualmente aparada no duplo queixo.



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

As aventuras de Amélia, uma cachorra de verdade





Segundas-feiras


Se era para ser uma saga ao menos que começássemos com um grande plano aéreo de colinas,  um campo a perder de vista e eu correndo atrás de uma bolinha atirada por Vicent Cassel, que por acaso é meu vizinho na Gávea e estaria disposto a fazer um cameo no episódio inaugural. Tudo isto aconteceria no estrangeiro, claro, talvez em Itália ou na Califórnia, porque não me vejo a protagonizar novelas no sertão ou sequer em Miami.

Mas o que aqui apresentamos, afinal, não é mais do que um folhetim novelesco na internet, e o máximo que conseguimos para o episódio de estreia foi fazer uma  fotografia de "diva ao acordar", sem maquilhagem ou escova. Para os detratores que questionam "É mesmo sem maquilhagem?", posso dizer que não tomo banho há mais de uma semana e que o eyeliner é de origem, vinha programado na genética vira-lata.

De qualquer maneira, estou na cama deles, o que é proibido, segundo as leis da casa, e o que faz de mim uma criatura fofinhamente subversiva. Eles, que elaboram com frenquência piadas sobre a minha limitada inteligência canídea, não têm  agilidade cerebral que lhes permita fechar a porta do quarto antes de sair para o trabalho. Como tal, o cão agradece esfregando-se no édredon.

E aqui estou, pensando como eles se alteram com os dias da semana, tão radiantes na sexta de manhã, monossilábicos nas segundas bem cedo.

- Está a chover, não podes ir trabalhar comigo.

Disse ele, antes de sair, como se eu lamentasse ficar em casa quando as temperaturas descem, chove o suficiente para o meu pelo cheirar a cão molhado e a porta do quarto ficou aberta.

Como se - mesmo numa editora - correr atrás de bolinhas e pássaros e comer plantas fosse, de facto, trabalhar.

O meu conceito de tempo não me permite perceber a diferença entre uma segunda e uma sexta-feira. Mas sei que todas as segunda-feiras há sempre mais migalhas pela casa, resultado das coisas açucaradas e salgadas que eles comeram no fim de semana. Talvez encontre uma pipoca biotóxica em baixo do sofá ou um papel de chocolate para lamber antes da chegada das formigas.

Por isso, quando ele me disse - Está a chover, não podes ir comigo trabalhar - eu esperei que batesse a porta da rua e fui comer um pedaço de rúcula que caíra na cozinha na noite anterior. Farejei todo o rodapé da sala, lambi migalhas de sofás e comi um mosquito na parede. Finalmente, aborrecida de espreitar pela janela para o parque de estacionamento, fui tombar-me na cama.

E, aqui deitada, incapaz de antecipar a chegada deles, que com certeza irão reclamar comigo por estar deitada na cama, penso se a Lassie percebia a diferença entre um sofá (onde posso estar) e uma cama (onde não posso estar), se conhecia os humores de segunda e de sexta feira e, caso fosse capaz de entender tudo o que a mim me escapa, se foi a sua compreensão singular que lhe valeu uma estrela no passeio da fama de Hollywood.

Porque, se para ser celebridade de novela, eu tenho de ir estudar para o estrangeiro ou penar nas manhãs de segunda, como eles, então deixem-me ficar enchouriçada neste édredon, espreitando aquilo que, tenho a certeza, é um pedacinho de fiambre no chão da sala.

Há coisas que só a natureza explica, e uma delas é que eu nasci para ser cachorra.


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Desta para pior




Dez regras do escritor Elmore Leonard, que morreu esta semana.

1.     Never open a book with weather.
2.     Avoid prologues.
3.     Never use a verb other than "said" to carry dialogue.
4.     Never use an adverb to modify the verb "said”…he admonished gravely.
5.     Keep your exclamation points under control. You are allowed no more than two or three per 100,000 words of prose. 
6.     Never use the words "suddenly" or "all hell broke loose."
7.     Use regional dialect, patois, sparingly.
8.     Avoid detailed descriptions of characters.
9.     Don't go into great detail describing places and things.
10. Try to leave out the part that readers tend to skip.

My most important rule is one that sums up the 10.
 If it sounds like writing, I rewrite it.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Mariza no Rio de Janeiro




1)

Apesar do comportamento afetivo e caloroso do público no concerto da Mariza, no Rio de Janeiro, a falta de respeito por quem canta e toca foi evidente. Celulares apitando amiúde, gente a tirar fotos insistentemente, com flash, no meio das músicas, pessoas tagarelando durante o show e outras chegando atrasadas, levantando-se a meio, entrando e saindo. Quando Mariza pousou o microfone para, como nas casas de fado, cantar sem amplificadores numa sala gigante, uma senhora na minha fila disse à a filha: "Uê, cadê o microfone?" E quando alguém pediu que a senhora se calasse porque estava a perturbar a interpretação da fadista (a sacana da velha passara o show inteiro a trocar impressões desnecessárias com a filha), a velha respondeu ao pedido de silêncio:

- Sua palhaça, o que você sabe do Fado?

A velha, pelos vistos, é que não sabia nada do fado, ou sabia tão pouco que desconhecia o refrão: "Silêncio que se vai cantar o fado", tantas vezes anunciado ao público antes de um fadista começar a sua atuação.

Talvez porque estávamos na Casa das Artes, na Barra, entalados entre lojas de franquia e shoppings colossais, a senhora pensasse que se encontrava na praça de alimentação do Barra Shopping.

Depois, quando Mariza decidiu cantar um fado entre a plateia, a loucura dos celulares ultrapassou a linha da decência, com pessoas colando os aparelhos quase na cara da fadista e com uma mulher tentando (por três vezes) pedir um autógrafo a meio de um fado.

Por mais que ame o fado - e até que o ache meu - não considero que exija mais respeito do que um concerto de trash metal. Nem acredito que o fenómeno da má educação dos celulares, atrasos e conversetas durante o espectáculo, sejam características exclusivas do público carioca - infelizmente, a obsessão em registar fotograficamente um evento no qual se participa, em vez de o desfrutar, é global e dissemina-se com a velocidade da estupidez em banda larga.


2)

Mariza não é a minha fadista preferida. Mas isso não interessa nada. As suas qualidades interpretativas, tanto vocais como cénicas, são as mesmas das grandes divas. Os seus músicos são altamente virtuosos. Ela é enorme em palco. E aquilo que fez alvoroçar, dentro de nós, ao cantar Primavera e Barco Negro, compensa qualquer má educação de algum público na plateia; aquilo que ela que consegue - voz, voltas, corpo dançante, peito lusitano, cordas tinindo nas guitarras - é muito mais do que um estilo musical de uma cidade, a minha cidade. É a minha vida inteira e a vida daqueles que me antecederam, é a nossa vida pulsando como se fosse um coração fora do peito.

3)

Silêncio, que se vai cantar o fado: