segunda-feira, 22 de julho de 2013

Esta é a madrugada que eu esperava




Texto publicado no blog do Prosa & Verso, do Jornal Globo.


Fujo, voluntariamente, do Rio de Janeiro. Quero sair, preciso afastar-me. Na orla de Ipanema, o mar revolta-se na janela do carro, mar de ressaca ou, como se diz em Portugal, marés-vivas. Só agora – dois anos depois de viver no Brasil e habituado a falar “mar de ressaca” – percebo que, ao longo da minha vida, disse “marés-vivas” sempre de uma forma utilitária, como quem diz “garfo” ou “pneu suplente”, sem alguma vez dar-me conta da beleza da combinação dessas palavras: “marés-vivas”, uma poesia mínima, com dois signos apenas, mas que surge na boca com o alvoroço das ondas e o poder da correnteza. Algo se renova e se movimenta se digo marés-vivas.

Estou a caminho de Paraty, ainda no início da viagem, nesse momento empolgado em que revisitamos o sobressalto das crianças com o tiro da partida. Sair para outro lugar, para longe da cidade, é uma forma de fintar a dormência dos hábitos. Quando viajamos, desemperram-se as sinapses, somos mais suscetíveis a tudo o que é novo. A velocidade e a distância da viagem permitem perspectiva, garantem-nos que há mais vida além do nosso trajeto diário casa-emprego-casa, mais histórias além das propagadas no Facebook. Viajar, escreveu Pío Baroja, é a melhor forma de curar o nacionalismo – porque se é verdade que aprendemos muito sobre os lugares aonde vamos, descobrimos mais ainda sobre o lugar de origem e sobre quem somos. Viajar cura cegueiras, inquieta dogmas e tira-nos do caminho traçado da repetição.


Para ler na íntegra clique aqui.

domingo, 21 de julho de 2013

Quebra-quebra, mata-mata




No ano passado morreram no Brasil 42 mil pessoas em consequência de acidentes de trânsito e o país continua em primeiro lugar no número absoluto de homicídios - foram 49,322, em 2010-, sendo que a impunidade (outra forma de violência) se revela na baixa taxa de resolução desses crimes. Na rádio, há uma campanha, em forma de canção, que apela para a serenidade em caso de altercações pequenas, domésticas, de bar ou no trânsito, uma vez que muitas das mortes violentas são o resultado, desproporcional e trágico, de pequenos desentendimentos quotidianos.

Talvez as mortes no trânsito não assustem tanto como o número de homicídios, uma vez que, no trânsito, todos somos prevaricadores e vítimas. Pedestres, ciclistas, motoristas de ônibus, taxistas, puxadores de carretas, todos parecem enfrentar o trânsito com uma lógica egotística de salve-se quem puder, sem noção do perigo de vida que os nossos erros e infrações podem causar, ignorando, tramando e insultando o outro, como se fizéssemos parte de algum reality show selvagem de sobrevivência.
O Brasil é uma país gentil e um país muito violento.

Os incêndios, a pilhagem, o frisson da destruição e do confronto com a polícia, que marcam as manifestações, são muito mais uma consequência desse Brasil violento do que resultado dos atos de protesto. No país onde é comum ler a palavra “chacina” nos jornais, onde os polícias andam com o fuzil fora da janela e sobrevoam favelas em helicópteros, no encalce de um traficante , disparando metralhadoras sobre casas como se estivessem a invadir um país, os protestos de rua foram uma oportunidade para mais uma revelação desse vírus, o mesmo que se manifesta todos os dias no trânsito ou numa execução.

Não é uma sintoma, é a própria doença.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

inverno




Estes dias de inverno no Rio, com a luz tão clara e manhãs de calor manso, lembram as primaveras portuguesas, mas sem a aflição hormonal típica da estação dos corpos em flor no hemisfério norte - apenas uma placidez das tardes sem escola, ruas onde se ouvem pássaros, o cheiro da comida caseira escapando pelas janelas para as calçadas. Neste generoso inverno,  há qualquer coisa de máquina do tempo. E é por isso que me sinto tão menino pedalando pela cidade.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Diário do Alentejo

Texto da jornalista Maria do Carmo Piçarra


"Primeiro, o autor. Antes de ser escritor, Hugo Gonçalves ganhou um prémio de revelação como jornalista, viveu (e vive, de novo) fora de Portugal, onde tem escrito nalguns dos principais jornais e revistas. Tem “espírito”, é observador e sabe escrever. O que faz dele, porém, um escritor é ter uma consciência de si e do mundo – de si, no mundo. Há nele uma ética e um comportamento enformado por ela. Gonçalves é inconformista e tem um pensamento político, no sentido clássico e sem que isso implique militância. A sua escrita é, sim, agitadora e transparente quanto aos sentidos que vai encontrando no seu trajecto de nómada e experimentador.



Depois, o livro, que traduz as qualidades daquele que o escreve. Em “Enquanto Lisboa arde...” o ritmo da escrita é tocado a fogo, ou antes, a samba – Gilberto Freyre chamou “luso-tropicalismo” ao “mundo que o português criou” mas até que ponto é que o sentido não foi predominantemente o da cafrealização, o de chegar e ser tomado pelo trópico? – e nele é evidente que Gonçalves sabe contar uma história como poucos romancistas portugueses. Há um ex-assessor político e aspirante a escritor que a crise – e o ter a cabeça a prémio - empurrou para o Brasil levando consigo a vontade de recomeçar e uma encomenda secreta. O romance relata o seu mergulho num universo de expatriados em busca de vida nova no hemisfério sul. O desfiar da história é potenciado pelas referências culturais contemporâneas que atravessam a obra – a tempo, sem forçar, capazes de estabelecer cumplicidades com o leitor – e pela qualidade do olhar de Hugo Gonçalves, atento aos detalhes e servido por uma escrita fortemente visual."


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Livreiro de Sines

Uma das primeiras apreciações de Enquanto Lisboa arde, o Rio de Janeiro pega fogo.


"Acabada a leitura do livro, entendi a frase de João Tordo em badana da capa: “Agarra-nos pelo colarinho e não nos larga até estarmos feitos num oito. Imperdível”.

O autor, Hugo Gonçalves, é um português a viver no Rio de Janeiro. Como cada vez mais jovens fugidos de tudo ou à procura de qualquer coisa. Acima de tudo, da sobrevivência.

Começa a história com o narrador no “Cais de partida” a despedir-se da sua doce e amarga Lisboa. Acaba com o retorno aos sons e cheiros da capital portuguesa".


Para ler na íntegra, clique aqui.