sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Manhã tão branca
Há meses que ando atormentado com uma frase de E.B White. Trata-se de uma inquietação do escritor americano, que já mencionei em várias coisas que escrevi, mas que regressa sempre, um tique do cérebro, uma obsessão repetida.
'I arise in the morning torn between a desire to improve the world and a desire to enjoy the world. This makes it hard to plan the day.'
Esta manhã fui comprar peixe, fruta e vegetais na feira da Gávea. Fazia sol pela primeira vez em dias. O plano parecia óbvio.
Mas logo abro o jornal e descubro que há clubes cariocas onde as babás só podem entrar fardadas; e numa estranha associação de ideias e imagens, de repente, a minha manhã fresca de verão é contaminada por uma sequência de lixo: dois políticos portugueses e um brasileiro celebrando o fim-de-ano no Copacabana Palace, que nem Irmãos Metralha ou amiguinhos da noite fazendo uma rodada de shots; ou o emigrante portuga, com quem jogava futebol na adolescência, e que reencontrei no Rio de Janeiro - quando lhe perguntei porque saíra de São Paulo para o Rio, recentemente, só foi capaz de falar do dinheiro que ganha e do tempo em que era um lorde, quando um euro valia quatro reais e era mais fácil para os gringos cavalgar a riqueza do Brasil e a subserviência dos fodidos.
Afortunadamente, o boletim metereológico do jornal anunciou céu limpo, interrompendo o videoclip da minha irritação. E só então percebo que querer anular ou castigar o lixo do mundo não é o mesmo que "melhorar" o mundo, como diz White.
Incapaz de ir agora para a rua e salvar viciados em crack, dar sangue num hospital ou apresentar-me como voluntário num lar de idosos, resta-me escolher o outro caminho. Pego na bicicleta, vou à praia, dou um mergulho e dou também graças pela poderosa paisagem de morros e mar, pelo corpo ressuscitando debaixo do sol, pela sorte que me calhou.
Hoje, não me inquieto mais. Os ônibus aqui têm o hábito de atropelar pessoas e amanhã pode ser o meu dia. My desire, Mr. White, is now to enjoy the world.
E como dizia Nucky Thompson, miúda da Gávea, há mais deus no meu amor por ti do que em todas as igrejas do mundo.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Saudades aos bocados
1.
pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer
Al Berto
2.
3.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Um bom dia para um casamento
A viagem
Eram pequenas coisas que se tornavam enormes: ele a conduzir e o pai ao lado, ele a ajudar o pai a entrar no carro por causa de uma dor nas costas, ele com o total controlo da rota, o silêncio entre os dois, não uma ausência de palavras, o silêncio. Pela primeira vez o silêncio. Crescer era isso – não apenas pagar contas, ser apanhado a conduzir com os reflexos inundados em gin ou nadar para fora de pé sem braçadeiras. Crescer, ser adulto, era aquilo: ir ao funeral da mãe do seu pai, a sua avó, tratar da papelada, ser mais pragmático diante do corpo que um médico em cenário de guerra. Havia muita coisa para fazer. Ser adulto era falar com o agente funerário e com a senhora das flores. Ser adulto era ouvir, na voz do pai, a sua voz de menino, frases rotas pelos soluços, as lágrimas escorrendo na garganta. Ele era adulto, o pai era velho. Ele já não era o menino do seu pai.
O pai tinha-lhe dito, ao telefone, “A minha mãe morreu, a avó morreu”, e naquelas palavras revisitou o seu próprio choro quando entregava um teste com negativa ou se tinha perdido numa praça de Badajoz ou quando o irmão lhe batia – ou quando o irmão não lhe batia e ele fingia-se saco da pancada, íman das atenções da casa, o filho mais novo.
Pararam várias vezes no caminho. O pai tinha a próstata danificada, demorava-se em frente aos urinóis das estações de serviço enquanto ele lia os jornais, as revistas, as legendas das páginas duplas com mulheres lambidas pelo Photoshop. Comprava chocolates mas ambicionava cigarros. Não fumava diante do pai. Nunca fumaria diante do pai depois de ter sido apanhado, no sétimo ano, com um maço escondido na gaveta das meias, denunciado pela empregada que também lhe apanhara material pornográfico. Os cigarros eram pior. Nunca se falaria de masturbação naquela casa, mas o tabaco era meio caminho andado para as ganzas, a heroína, a desgraça de uma família com as pratas roubadas. Não fumava diante do pai, não falavam de política, não trocavam ideias sobre temas que acabassem em semanas sem um telefonema.
Encostado ao carro, viu o pai, que saía da casa de banho, a braguilha aberta, os olhos procurando um lugar seguro, tal e qual a criança perdida em Badajoz. O pai, naquela estação de serviço, avançando medrosamente para um funeral, era o mesmo homem que, depois de confiscado o tabaco, lhe tinha atirado o maço à cabeça. O pai era forte e ambicioso e arrependia-se sempre que largava um estalo. O pai precisava agora de comprimidos para dormir e tinha os olhos tão vermelhos como uma tarde subaquática na piscina.
Entraram no carro, ele não acendeu a rádio. Não era estranho o silêncio.
Serás terra
Era um dia lindo para um casamento. O céu não tinha um farrapo de nuvens e havia pássaros. Iam a pé até ao cemitério, o pai sem dizer nada, caminhando atrás da carrinha funerária, atrás da sua mãe, encolhida por tantos anos de vida, dentro de um caixão. No final, quando a demência tudo confundia na linha cronológica das sinapses da avó, ela só reconhecia o seu filho. Não o filho com filhos, dores na próstata e três casamentos. O filho dela, pequeno, o filho carente de coisas doces, o miúdo incapaz de perceber que a mãe seria enterrada num dia lindo para se fazer um casamento.
O pai não falou no caminho para o cemitério, mas ele ouvia a sua voz como se equipado com auscultadores de museu. Na visita guiada, o pai repetia o que lhe contara há muitos anos, quando por ali passaram num verão:
“Esta foi a casa onde nasci.”
“O teu avô pôs um baloiço naquele sobreiro.”
Ele analisou as mulheres no cortejo. Só uma prima em segundo grau o cativou. Depois olhou para os pés dela e ficou manso. Sentiu-se aliviado. Não queria filmes nem filhos vítimas da consanguinidade. Olhou outra vez para os pés dela. Queria ter a certeza que não era aquilo que precisava. Ouviu a voz do pai nos auscultadores da infância:
“Devia vir cá mais vezes.”
“Tens a genica do teu avô.”
Cruzaram os corredores de sepulturas. Como fazia sempre que estava num cemitério, pôs-se a contabilizar a longevidade das vidas dos mortos: Justino Gomes (1956-98), Bernardina Ramalho (1910-78), Domingos Lourenço (1976-77). Ele sabia que todos os humanos faziam esse jogo nos cemitérios, esse exercício de perspectiva, como quando estamos debaixo de um céu estrelado ou nas ruínas de uma civilização muito antiga.
Há anos que o pai comprara, naquele cemitério, um pedaço de descanso eterno com jardim privado e cheiro a ciprestes. Estava lá o avô, estava lá o buraco que seria a campa de mármore da avó. Fez contas de cabeça para saber a idade do avô. Nos auscultadores ouviu:
“O teu avô fumava e bebia muito.”
“Eu nunca quis fazer mal a ninguém.”
“A minha mãe morreu.”
Porque tinha estado em vários funerais, ele sabia do apogeu dramático do caixão a descer ao fundo da cova. Segurou o pai pelos ombros, beijou-lhe a cara, não disse nada. Não fosse o choro do pai, que era também o seu choro de menino, tudo seria outra vez silêncio. Ele não chorou. Ele era o pai e o pai era o filho.
Regresso
Nessa noite dormiram num hotel na cidade mais próxima. A prima em segundo grau também. No bar, porque sabia dos poderes libertadores das bebidas espirituosas, ele pediu apenas um copo de vinho, enquanto ela sorvia Baileys com gelo em cálice largo e falava de uma série de televisão com médicos e do preço do aparelho para os dentes da filha. Ser adulto era ver ficção americana no pequeno ecrã e endireitar aquilo que nasceu torto por causa dos nossos genes. Ser adulto era ir para o quarto sozinho.
Ela disse: “Devíamos ver-nos mais vezes, nem sequer tenho o teu número.” Por via das dúvidas, ele olhou para os pés dela. Disse: “Vou dormir, o meu pai não anda bem.”
Escovou os dentes, apagou a luz e atreveu-se na escuridão, as pupilas aumentando, procurando os objectos, o seu pai deitado numa das camas. Dobrou-se sobre aquele corpo. Tentou ouvir a respiração. Não lhe tocou. Lembrou-se como, juntamente com o irmão mais velho, fingia que a cama era uma nave espacial. Entre os lençóis, disse baixinho: “Vamos levantar voo.” Não demorou muito a adormecer.
Na manhã seguinte, dentro do carro, outra vez o silêncio. Entregou o pai na casa onde crescera. Ali seria sempre mais filho do que pai, mesmo quando tivesse crianças e elas saltassem para a piscina e houvesse festas de aniversário e Natais que seriam outros Natais.
O pai disse: “Não queres entrar?”
E ele voltou a ser o filho.
O pai tinha-lhe dito, ao telefone, “A minha mãe morreu, a avó morreu”, e naquelas palavras revisitou o seu próprio choro quando entregava um teste com negativa ou se tinha perdido numa praça de Badajoz ou quando o irmão lhe batia – ou quando o irmão não lhe batia e ele fingia-se saco da pancada, íman das atenções da casa, o filho mais novo.
Pararam várias vezes no caminho. O pai tinha a próstata danificada, demorava-se em frente aos urinóis das estações de serviço enquanto ele lia os jornais, as revistas, as legendas das páginas duplas com mulheres lambidas pelo Photoshop. Comprava chocolates mas ambicionava cigarros. Não fumava diante do pai. Nunca fumaria diante do pai depois de ter sido apanhado, no sétimo ano, com um maço escondido na gaveta das meias, denunciado pela empregada que também lhe apanhara material pornográfico. Os cigarros eram pior. Nunca se falaria de masturbação naquela casa, mas o tabaco era meio caminho andado para as ganzas, a heroína, a desgraça de uma família com as pratas roubadas. Não fumava diante do pai, não falavam de política, não trocavam ideias sobre temas que acabassem em semanas sem um telefonema.
Encostado ao carro, viu o pai, que saía da casa de banho, a braguilha aberta, os olhos procurando um lugar seguro, tal e qual a criança perdida em Badajoz. O pai, naquela estação de serviço, avançando medrosamente para um funeral, era o mesmo homem que, depois de confiscado o tabaco, lhe tinha atirado o maço à cabeça. O pai era forte e ambicioso e arrependia-se sempre que largava um estalo. O pai precisava agora de comprimidos para dormir e tinha os olhos tão vermelhos como uma tarde subaquática na piscina.
Entraram no carro, ele não acendeu a rádio. Não era estranho o silêncio.
Serás terra
Era um dia lindo para um casamento. O céu não tinha um farrapo de nuvens e havia pássaros. Iam a pé até ao cemitério, o pai sem dizer nada, caminhando atrás da carrinha funerária, atrás da sua mãe, encolhida por tantos anos de vida, dentro de um caixão. No final, quando a demência tudo confundia na linha cronológica das sinapses da avó, ela só reconhecia o seu filho. Não o filho com filhos, dores na próstata e três casamentos. O filho dela, pequeno, o filho carente de coisas doces, o miúdo incapaz de perceber que a mãe seria enterrada num dia lindo para se fazer um casamento.
O pai não falou no caminho para o cemitério, mas ele ouvia a sua voz como se equipado com auscultadores de museu. Na visita guiada, o pai repetia o que lhe contara há muitos anos, quando por ali passaram num verão:
“Esta foi a casa onde nasci.”
“O teu avô pôs um baloiço naquele sobreiro.”
Ele analisou as mulheres no cortejo. Só uma prima em segundo grau o cativou. Depois olhou para os pés dela e ficou manso. Sentiu-se aliviado. Não queria filmes nem filhos vítimas da consanguinidade. Olhou outra vez para os pés dela. Queria ter a certeza que não era aquilo que precisava. Ouviu a voz do pai nos auscultadores da infância:
“Devia vir cá mais vezes.”
“Tens a genica do teu avô.”
Cruzaram os corredores de sepulturas. Como fazia sempre que estava num cemitério, pôs-se a contabilizar a longevidade das vidas dos mortos: Justino Gomes (1956-98), Bernardina Ramalho (1910-78), Domingos Lourenço (1976-77). Ele sabia que todos os humanos faziam esse jogo nos cemitérios, esse exercício de perspectiva, como quando estamos debaixo de um céu estrelado ou nas ruínas de uma civilização muito antiga.
Há anos que o pai comprara, naquele cemitério, um pedaço de descanso eterno com jardim privado e cheiro a ciprestes. Estava lá o avô, estava lá o buraco que seria a campa de mármore da avó. Fez contas de cabeça para saber a idade do avô. Nos auscultadores ouviu:
“O teu avô fumava e bebia muito.”
“Eu nunca quis fazer mal a ninguém.”
“A minha mãe morreu.”
Porque tinha estado em vários funerais, ele sabia do apogeu dramático do caixão a descer ao fundo da cova. Segurou o pai pelos ombros, beijou-lhe a cara, não disse nada. Não fosse o choro do pai, que era também o seu choro de menino, tudo seria outra vez silêncio. Ele não chorou. Ele era o pai e o pai era o filho.
Regresso
Nessa noite dormiram num hotel na cidade mais próxima. A prima em segundo grau também. No bar, porque sabia dos poderes libertadores das bebidas espirituosas, ele pediu apenas um copo de vinho, enquanto ela sorvia Baileys com gelo em cálice largo e falava de uma série de televisão com médicos e do preço do aparelho para os dentes da filha. Ser adulto era ver ficção americana no pequeno ecrã e endireitar aquilo que nasceu torto por causa dos nossos genes. Ser adulto era ir para o quarto sozinho.
Ela disse: “Devíamos ver-nos mais vezes, nem sequer tenho o teu número.” Por via das dúvidas, ele olhou para os pés dela. Disse: “Vou dormir, o meu pai não anda bem.”
Escovou os dentes, apagou a luz e atreveu-se na escuridão, as pupilas aumentando, procurando os objectos, o seu pai deitado numa das camas. Dobrou-se sobre aquele corpo. Tentou ouvir a respiração. Não lhe tocou. Lembrou-se como, juntamente com o irmão mais velho, fingia que a cama era uma nave espacial. Entre os lençóis, disse baixinho: “Vamos levantar voo.” Não demorou muito a adormecer.
Na manhã seguinte, dentro do carro, outra vez o silêncio. Entregou o pai na casa onde crescera. Ali seria sempre mais filho do que pai, mesmo quando tivesse crianças e elas saltassem para a piscina e houvesse festas de aniversário e Natais que seriam outros Natais.
O pai disse: “Não queres entrar?”
E ele voltou a ser o filho.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
terça-feira, 24 de julho de 2012
To Boom or not to Boom
(Há quatro anos escrevi este texto sobre a minha viagem a um dos melhores festivais de música eletrónica do mundo. Foi publicado dois anos depois, na revista do jornal i, na semana do Boom. Recupero-o agora, que está prestes a começar mais um Boom)
O Boom é um dos
melhores festivais de música electrónica do mundo, capaz de trazer a
Idanha-a-Nova mais de 20 mil pessoas de 80 nacionalidades. E não é apenas o
festival de verão que mais se preocupa com a sustentabilidade e o ambiente. É também
uma viagem, um escape da realidade. Por isso, atrai tanta gente. Na semana em
que o Boom regressa, recuperamos um texto inédito de Hugo Gonçalves, escrito após
o último Boom. Missão dessa viagem: perceber porque a geração global, que se
preocupa com planeta, gosta tanto de drogas. E experimentar um ácido.
Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter
aquela velha opinião formada sobre tudo
Raul Seixas
Estávamos deitados em toalhas, na relva, debaixo de um toldo gigante que ondulava sobre os nossos olhos. O pano tinha buracos, podíamos ver o céu. Num deles passou um avião. Dois riscos de fumo branco. Fumávamos cigarros de pólen, apreciávamos os vizinhos que fumavam erva ou que dormiam sestas ou que estimavam a constante passagem dos habitantes do festival, o espectáculo da diversidade humana. O lago e as montanhas lá atrás. Um homem de turbante numa bicicleta. Duas negras, com vestidos curtos, segurando um guarda-sol amarelo, de praia, como se fosse uma sombrinha japonesa. Um americano que tocava guitarra eléctrica, propagando a melodia num amplificador, música suspirada para uma audiência em estado de levitação. Perguntei ao Luís, companheiro de viagem no Boom: “Como se chama aquele pano vermelho que o gajo tem na cabeça? O mesmo que usam os sauditas.” Nenhum de nós tinha a resposta.
Pela primeira
vez tinha ponderado tomar um ácido. Hesitava, mesmo que fosse uma missão
jornalística, mesmo que outros profissionais do ofício da escrita já o tivessem
feito e voltado do universo do LSD para contar a história. Nunca tinha tomado
essa droga mas o Boom apresentava-se como lugar para experimentalismos. “Não
quero ficar um dia inteiro a tripar. Gosto de controlar a cena”, disse Luís.
Para nós, os ácidos eram histórias de coelhos gigantes cor-de-rosa, o receio de
ter o cérebro numa fritadeira de batatas, a possibilidade de ficar do outro
lado do espelho.
Empurrei as costas de Luís: “Olha a miúda de
ontem”. Ele demorou a perceber: “Quem?”. Insisti: “Vai atrás dela.”. Luís tardou
a levantar-se. Ela afastava-se e eu via como o meu amigo parecia não querer
ganhar-lhe terreno. Talvez tivesse vergonha. Numa lenta perseguição a pé,
desapareceram os dois após a curva. Luís arrastando os chinelos na terra. Ela
com um vestido azul e branco, de riscas, mostrando a delicada armação dos
ombros, o cabelo loiro absorvendo a luz forte do princípio da tarde. Talvez
algo de extraordinário estivesse para acontecer depois daquela curva de terra.
No dia anterior,
no início da viagem para o Boom, Luís segurava o volante e contava os
quilómetros nas pequenas placas azuis da berma. “138”. Mais paisagem. “139”. Um
cigarro. “140”. Com comida de estação de serviço em cima das pernas, eu tentava
meter ordem na ansiedade de chegar ao destino e tomar um ácido, repetindo o
plano de acção uma e outra vez: “Procurar sítio, montar as tendas, dar um giro
pelo festival, jantar qualquer coisa”. Lá fora, o país derretia nas janelas, a
paisagem estalava com o calor. Falámos desse país das auto-estradas que nos
permitia chegar tão depressa onde queríamos chegar. Eu e o Luís: filhos da
classe média, filhos de pais que medem o sucesso em casas, empregos e salários.
“Eu compreendo, não te esqueças que há trinta anos nem sequer havia sistema de
saúde público”, disse, como se num programa de debate televisivo. “O sucesso,
para os nossos pais, que cresceram num país miserável, com fome, de
analfabetos, mede-se de maneira diferente”.
Mas a
compreensão com as exigências paternas não chegava para desfazer o desconforto
com a herança familiar e o legado do país. “Está tudo a dormir, tudo acomodado,
parece que ninguém quer ser mais, descobrir mais” – Luís falava, eu falava.
Numa viagem de três horas não acendemos o rádio. Mal sabíamos que ficaríamos
tão longe do país real ao entrar no Boom.
Disparou a viagem.
Tão rápida. Dias que iriam parecer semanas, uma epifania, qualquer coisa que
muda as peças, que nos põe de pernas para ar e permite descobrir costuras que
ainda não tínhamos encontrado. Passámos as portas festival. Tínhamos as
pulseiras oficiais mas ainda não fazíamos parte da tribo. Estacionámos o carro,
atravessámos o pó de fim de tarde, uma película que desfocava os contornos das
20 mil pessoas, de 80 nacionalidades, que cruzavam um terreno de 200 hectares,
e que dançavam, comiam, se drogavam, que mergulhavam no lago, que começavam
conversas com estranhos e sorriam umas para as outras. Ainda não sabíamos nada.
Não tínhamos lido sequer a frase das pulseiras, o mantra do festival: “We are
all. We are one”.
Montámos as
tendas ao anoitecer. Comemos depressa, um prato indiano que não terminámos. Por
causa da missão de tomar um ácido, tínhamos a inquietação e o receio dos
adolescentes prestes a inaugurar-se nos cigarros clandestinos numa casa de
banho de liceu. Procuráramos fornecedores de substâncias que permitissem
cumprir as expectativas. Não encontrámos ácidos, só um grama de Mdma (50 euros).
Despejámos os cristais numa garrafa de água. Comprámos mais duas garrafas por
causa da desidratação provocada pela substância – tinha lido tudo o que podia sobre
drogas químicas antes de partir para o Boom. Esperámos, no limite da pista,
aguardando que o cérebro desprendesse a seretonina, que as pernas ficassem sem
peso, que o corpo disparasse. “Já está a bater?”, gritei, por cima da potência
da música, entre as pessoas que já tinham dado o salto e dançavam, por vezes
lascivas, sedutoras, por vezes agitando coreografias eléctricas que pareciam
concebidas por uma empresa de jogos de vídeo. Mdma: componente fundamental do
Ecstasy, da família das anfetaminas, droga de amor e paz porque tudo parece
agradável, a pele exulta com uma brisa, o mundo é nosso amigo, a música faz
todo o sentido nas articulações. Toda esta beleza é possibilitada pelos
processos químicos do cérebro, quando os neurotransmissores do prazer inundam
as sinapses. Foi descoberto por uma companhia farmacêutica alemã, no início do
século passado, a fim de combater o sono e a fome entre soldados. Na década de
60, foi usado como tratamento em psicoterapia. Nos anos 80 popularizou-se como
droga recreativa no Reino Unido. Faz-nos felizes, é ilegal, tira-nos o sono, a
ressaca pode assemelhar-se a uma depressão.
Na pista de
dança, Luís testemunhou a queda de uma mulher loira, que ficou no chão. Quis
ajudá-la mas ela (lábios robustos, cintura tão estreita) não se podia erguer.
Eu, o Luís e duas inglesas, Joe e Helen, ajudámos a mulher loira. Carregámos o
seu corpo sem vontade própria para fora da pista. “ O que é que tomaste?”,
perguntou Luís. E descobriu-se que o namorado desaparecera, que ela tinha tomado
ketamina, um sedativo aplicado a cavalos e gado bovino.
Descobrimos a
tenda branca, onde se cuidavam os excessos, guardada por um homem grande,
enrolado num cobertor, de cabelo longo, com óculos deslizando pelo nariz –
Stephen parecia um chefe índio loiro, de frases lentas e gestos místicos. “O
que se passa com o homem?”, perguntou. Helen corrigiu-o. “É uma mulher, não se
está a sentir bem”. Stephen abriu o caminho para a tenda e, como se o seu
cosmos dependesse da providência do fogo, disse: “Têm lume?” Dentro da tenda,
grande, com velas, esteiras e sons gravados que podiam pacificar assaltantes de
bancos, Joe e Luís ajudaram a mulher loira a deitar-se. Então, alguém da tenda,
fornecedor de paz, segurou-lhe na cabeça.
Doze horas mais
tarde: o toldo gigante, os cigarros de pólen, duas negras, com vestidos curtos,
segurando um guarda-sol amarelo, de praia, como se fosse uma sombrinha
japonesa, o americano que tocava guitarra eléctrica. Talvez algo de
extraordinário estivesse para acontecer depois daquela curva de terra ao fundo
do caminho. Não sabia quanto tempo passara desde que Luís tinha saído em busca
da mulher que resgatara na noite anterior. A loira da ketamina. Luís regressou
e disse: “Era ela. Não se lembrava de nada”. Eu: “Nem de ti? Mas disseste-lhe o
que aconteceu”. Luís: “Só saiu de lá agora. Pediu-me desculpa por não se
lembrar de nada. Disse que ia procurar o namorado. Também não era tão gira como
parecia ontem”. Eu: “Nunca são”.
Embora cansados
não conseguíamos dormir. Falámos sobre tomar um ácido. Justifiquei-me, tinha um
trabalho a cumprir: “Disseram-me que de dia é melhor”. Luís ligou a um amigo,
fez-lhe perguntas sobre a quantidade a consumir, os efeitos, o tempo de
duração. Desligou: “O gajo disse que ficou na praia a ver barcos passar”. Barcos
que nunca existiram. Rimos. Fumámos mais um charro. Os corpos preguiçosos, uma
gelatina sem ossos lá dentro. Mas começaram os problemas de logística. Tínhamos
pouco dinheiro nos bolsos e a máquina de multibanco do festival esgotara as
notas. Ligámos a outro amigo, que chegaria nessa noite, para trazer mais
dinheiro. Queríamos comprar um ácido mas ficaríamos sem orçamento. Decidimos
sacar dinheiro no multibanco da vila. Os carros no parque de estacionamento do
festival, desde longe, lambidos pelo pó, pareciam um quebra-cabeças de milhares
de miniaturas e o nosso era carro um brinquedo que demorámos muito tempo a
encontrar.
O motor
arrancou. Percebemos que não podíamos ligar o ar condicionado porque o depósito
entrara na reserva. Transpirámos muito. Já no lado de fora do Boom, parámos
para dar boleia a um casal. “Pré Boom?”, perguntou a rapariga. O outro elemento
do casal saltou para o banco de trás com as mochilas. Lude chegara de Barcelona
e tinha as amigas dentro do festival. Rodrigo apanhara um avião no Rio de
Janeiro. Não se conheciam. Encontraram-se na entrada por acaso. Uniam-se para
conseguir entradas. Já não se vendiam mais bilhetes para não comprometer o meio
ambiente e o próprio funcionamento do festival – a organização não queria
transformar os humanos numa praga de gafanhotos. Lude e Rodrigo procuravam
soluções para entrar. Manifestavam o desespero de ficar no limite de algo
singular. “Sinto raiva”, disse Lude. Os brasileiros iam no banco de trás,
explicando como um grupo de pessoas tinha organizado um festival na outra
margem do lago, com vista para o Boom. O pré-Boom era afinal um anti-Boom,
garantia Rodrigo – dezenas de tendas e caravanas, mesmo ao lado do parque de
campismo, que cuspiam som através de colunas amadoras. Um caos musical. Um francês
parou o carro: “Ou est le petit Boom?” Pré-Boom, anti-Boom, petit Boom – um
acampamento de gente que tentara chegar ao Boom original e ficara de fora.
“Uns caras
saíram daqui de noite, a pé, pelo mato, e não voltaram. Quer dizer que
conseguiram entrar no festival. Deve demorar umas quatro horas andando pelo
campo”. Rodrigo lançou a proposta antes de sair do carro para ir buscar a tenda
ao parque de campismo. Lude fez um charro para quatro pessoas. Chegara a
Barcelona há seis meses para fazer um mestrado em cinema. “Lá você tem muito
mais qualidade de vida do que em São Paulo onde saía do escritório de noite e
passava horas no trânsito. Agora vou para o trabalho de bicicleta”.
O charro tinha acabado quando Rodrigo chegou. Estávamos
pouco clarividentes e Luís apresentou a estratégia para que os brasileiros
entrassem no Boom: “Ficam um quilómetro depois da entrada e fazem corta-mato,
na diagonal. Não são mais de 500 metros. Não vieram até aqui para ficar de
fora.”
Lude e Rodrigo atiraram as mochilas para o
outro lado da vedação, iniciando o caminho da transgressão da propriedade
privada. Despedimo-nos e entrámos na estrada para o Boom. Os 500 metros
transformaram-se em mais de um quilómetro, que, para Lude e Rodrigo, se multiplicaria
muitas vezes tendo em conta as colinas, a noite e o peso das tendas e das
mochilas nas costas dos brasileiros.
Na escuridão, já
dentro do Boom, demorámos a repousar o carro num lugar de estacionamento. Eu,
que consumira demasiados centímetros do charro de Lude, disse: “Estou com uma
grande moca nesta cabeça”, e entrei na corrente de pessoas que, como num
carreiro de formigas em modo de vibração, se aproximava ou afastava do coração
do festival: a pista de trance, sempre lotada, o latejar grave da música que
nunca se extinguia, o batimento cardíaco do bicho. Quase a alcançar a tenda,
disse: “Perdi a carteira”. Nota mental: fumar haxixe causa perda da memória de
curto prazo – a carteira estava no carro.
E outra vez a
velocidade das imagens, dos estilhaços de diálogos. Primeiro um debate junto da
zona de carregamento de telemóveis. O estado do mundo foi analisado a partir do
estado de espírito Boom – essa ideia psicadélica de que somos todos um, a fusão
com a natureza, o despojamento material. Passou uma mulher de lenço na cabeça,
parecia um chapéu, uma instalação de pano. Tinha roupa difícil de definir – uma
saia, um vestido, um sari? – e nenhum detalhe que denunciasse a sua
nacionalidade. Luís estava convertido ao Boom, levantou as duas mãos e varreu a
atmosfera: “Vês esta gaja que acabou de passar? Não podes saber o que ela
gosta, o que ela compra. Não a podes catalogar.” Luís abandonou recentemente a
indústria da publicidade após dez anos de carreira, mudou-se para um pequeno
apartamento junto da praia, começou um projecto ainda sem retorno financeiro,
vendeu uma moto e uma câmara: “E é isso que fode os publicitários, é isso que
fode o sistema que gosta de tudo definido e controlado”. Luís falou da sua
irritação com uma campanha publicitária da Alfa Romeo: “Os alfistas? Os gajos
que têm aquele carro? Ou tu fazes parte de um grupo controlado e esquematizado,
ou deixas de existir, não contas? Isto faz sentido? Os alfistas, meu?”. E eu,
guardador chato de citações, lembrei-me das palavras de David Simon,
argumentista. Nesse momento, falei de uma ideia do autor norte-americano, mas
fui incapaz de produzi-la com precisão. Dias mais tarde, após uma pesquisa,
encontrei na internet o que disse Simons: “O leitor médio, como normalmente o
define a indústria, é branco, dos subúrbios, assinante de revistas e tem dois
ponto qualquer coisa filhos, e três ponto qualquer coisa carros, e um cão e um
gato e mobiliário de jardim. Não sabe nada e precisa que lhe expliquem tudo
imediatamente (...) Ele que se foda. Que se foda no inferno”. Nos seus anos na
publicidade, Luís de trabalhar para o leitor médio.
Há muita gente a
drogar-se no Boom, mas há quem queira apenas dançar ou fazer aulas de ioga ou
ver concertos. Encontrei engenheiros de plataformas petrolíferas, médicos, músicos,
financeiros, investigadores, jornalistas, gente que a sociedade não se
atreveria a chamar freaks, pessoas que pagam impostos e criam filhos e que
estavam ali para a viagem Boom, procurando fugir da máquina trituradora do
dia-a-dia, prontos afundar-se numa realidade alternativa com gente de todo o
mundo, montanhas e lagos e excelente música electrónica. Uns drogavam-se,
outros não.
O Boom começou
em 1997 e propunha-se ser um festival psicadélico Goa Trance. Cresceu e ao
longo dos anos passou a ser também um evento preocupado com o ambiente e as
artes. Há cinzeiros portáteis para não se deitarem beatas no chão, a água é
reciclada, a organização colabora com os agricultores locais e com a
comunidade, compromete-se a deixar o terreno em melhor estado que o encontrou.
E há obras de arte espalhadas pelo festival, exposições, aulas de meditação. O
Boom quer um mundo mais espiritual, menos ávido de consumo, mais preocupado com
o planeta.
Sentámo-nos na
zona de restaurantes. O amigo, que tinha o contacto do fornecedor de LSD,
ligara para informar que se aproximava do festival. Começávamos a sentir-nos
parte da tribo, essa noção de pertencer a alguma coisa sem necessidade de
anular quem somos. “Já fui a outros festivais grandes e metem-se todos nos
copos e depois acaba tudo ao estalo. Viste algum desatino aqui?”, perguntou
Luís. Falei dos habitantes do Boom, da sua falta de ansiedade de status, da
ausência de juízos sobre as escolhas dos outros. Luís: “Dizem que isto é o
festival dos janados. Mas esta gente talvez se preocupe mais com os outros do
que a maioria dos sóbrios.” Eu: “Do que a maioria dos leitores médios”.
Tinha chegado a
hora de cumprir o meu propósito. Puseram-nos em contacto com um rapaz loiro, de
pele morena, que costuma correr diferentes festivais. Disseram-nos que só
vendia drogas de qualidade. E a verdade é que o rapaz tinha sofisticação e
cuidado no atendimento ao cliente. Uma gota de LSD na minha boca, uma gota
apenas. LSD: droga química descoberta, acidentalmente, a partir de um fungo do
centeio, um poderoso alucinogénico, que chegou a ser utilizado por médicos em
casos de alcoolismo e disfunções sexuais, o motor da fase psicadélica dos
Beatles, a chave para o mundo de Alice. Tinha lido artigos sobre o LSD, vi
documentários, cansei pessoas, que já tinham tomado, para que me explicassem os
efeitos. Mas cada viagem é uma viagem, disseram-me. E tinham razão.
Três horas mais
tarde, vi uma ponte com dois túneis onde parava um comboio e carros e pessoas a
entrar para uma carruagem. Vi ainda gnomos e flores abrindo-se diante de mim. Tudo
era novo e maravilhoso. Luís editava filmes com os seus olhos, alterava a
profundidade de campo dos elementos no cenário, as cores e a perspectiva das
nuvens. Eu disse: “É como se o mundo fosse todo em alta definição”. Luís disse:
“Podes fazer o teu próprio filme”. Entre as três e as nove da manhã
experimentámos as lentes cristalinas do LSD. O mundo já não tinha cicatrizes,
apenas cores jamais admiradas, pureza, a lucidez dos mais sábios. Não me senti
paranóico, não tive medo, tudo fazia mais sentido. Eu e Luís, cada um com a sua
trip.
No lago, horas
antes da partida, passada a fase das alucinações, mas ainda sob o efeito da
comunhão com o universo causado pelo LSD, uma mulher ruiva deixou cair o pano
enrolado no corpo para se misturar com a água. Enternecemo-nos com a beleza do
lago e das pessoas. Tínhamos os pés inchados e cortados de tanto andar na noite
anterior. Os músculos magoavam a cada movimento. “Pareço um velho”, disse. E,
no entanto, algo tinha renascido. Dizem que os ácidos podem parecer uma
experiência religiosa, uma janela para o entendimento, que as peças da
existência começam a encaixar. Foi isso que senti.
Na noite
anterior, eu, Luís e três amigos, sob o efeito do LSD, descemos uma colina, pés
batendo na terra, uma formação de ataque perfurando a escuridão, caminhando
para a luz, para a pulsação do centro do festival, para o chamamento da música.
Eram tantas as possibilidades. Corríamos como animais pesados, algo estrondoso
e belo e urgente. Cobertos de pó, estremecíamos os músculos e o chão,
respirávamos fundo, avançávamos a galope, determinados, prodigiosos,
inquebráveis, sem tempo, sem notícias do mundo, sem GPS, sem o sobressalto de
um toque polifónico a interromper a investida – bichos primários, inundados de
sangue e ao mesmo tempo tão exactos e luminosos como os riscos brancos que os
aviões traçavam no céu do festival durante todo o dia. Por causa da decoração,
das luzes, do lago, das árvores, da música, o Boom está feito para acolher este
tipo de experiências. Tomar um ácido num quarto em Rio de Mouro deve ser
diferente de tomar um ácido no Boom – We are all. We are one.
Lude e Rodrigo
ligaram-nos. Tinham encontrado 13 pessoas a meio da sua caminhada pelo mato.
Todos eles a caminho do Boom. Pintaram as caras de amarelo e decidiram
chamar-se a equipa amarela. Foram quatro horas de travessia nocturna. Ficaram
até ao último dia do festival.
Na viagem de
regresso a casa, conhecedores do prazo de validade das emoções, temíamos perder
tudo o que tínhamos descoberto. E, ainda assim, era muito maior o poder da
alegria e do esclarecimento. Na nossa condição de bichos da terra, mas também
na incomum harmonia da tribo – essa mistura de idiomas e caras e histórias –
pressentíamos a hipótese de um triunfo. “Vamos lentos mas no bom caminho”,
escreveu Luís, num sms, dias mais tarde. Talvez nada daquilo se repetisse, talvez
fosse apenas o vapor idealista do LSD nos nossos cérebros, talvez a engrenagem
recuperasse as suas peças e as metesse na ordem – um país que se desperdiça,
que assobia para o lado, uma geração, ainda a meio do caminho, mas já
comodamente sentada no carrossel, contente com a luzes e a música de fundo, a
dar voltas e voltas, a mesma vida, a mesma vida, a mesma vida. Ou talvez
fôssemos a tempo de saltar da lenta roda em movimento, rebentando a bolha,
talvez fôssemos a tempo de abandonar esse culto nacional em que basta acreditar
que isto chega. Mas isto não chega. Então, ao estacionar o carro em Lisboa, um
de nós perguntou: “E agora?”
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