quinta-feira, 12 de julho de 2012

Língua Geral


Desde há uns meses que sou editor da Língua Geral, editora carioca que publica exclusivamente autores lusófonos, do Rio a Luanda, de Lisboa a Díli, do Recife a Maputo.

A editora está a mudar e a transformar-se e acaba de lançar o livro de João Tordo, O Bom Inverno, o primeiro título que o autor escreveu após ganhar o Prémio Saramago, com 3 Vidas, também publicado na Língua Geral.

Além disso, acabamos de lançar um novo selo, Série Geral, que pretende publicar grandes autores de língua portuguesa com preços mais acessíveis.

E estreámos novo site, que inclui o blog Língua Solta, onde escreverei regularmente e onde haverá, diariamente, notícias sobre os autores e livros bem como textos dos próprios. Para a semana publicaremos um conto inédito de João Tordo.

Se quiserem saber mais, basta clicar aqui.

Ai Portugal Portugal

Estou longe mas dói-me. Lembro-me de ouvir o John Stewart dizer, sobre a imprensa, "You are hurting us". Cito o humorista sensato, mantenho o destinatário e acrescento todos os que há décadas desgovernam o país, as empresas, os bancos, as escolas, as estradas, a justiça: "Estão a fazer-nos mal". Perante o sofrimento, ou se come e cala ou se reage. Como? Não sei. Tenho pensado muito nisso mas sozinho não sei. Sei no entanto que há um limite para quem é roubado, enganado, ocultado, calado, empobrecido e desprezado. Há quem diga que depois da tristeza vem a raiva. E essa é muito mais perigosa. Esta gente anda a brincar com o fogo.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Diário da Flip: a poesia está na rua.



“As notícias da minha morte foram exageradas.”  Mark Twain

É um lugar-comum muitas vezes repetido, mas é também uma evidência imediata para quem chega: Paraty é especial. Seja a brancura das fachadas imaculadas, seja a memória do tráfico negreiro, seja o esplendor azul do mar e verde do mato, sejam as ruas com pedras pé-de-moleque por onde circulam carroças com um vagar de antigamente – uma tranquilidade que desacelera o mundo e quem aqui chega. Paraty é um lugar ideal para se ler um livro. E para se escrever um livro.


Para ler mais, clique aqui

Dá-me um nome de rua, de uma rua de Lisboa



Amo Lisboa e o meu amigo João Tordo alertou-me para este vídeo. Um texto meu, sobre o elevador da Glória, lido na calçada da Glória, e o meu livro nas mãos de lisboetas. A pele arrepiou-se um bocadinho. De Saudades.

Pode ser visto aqui: http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2643798&seccao=Sul

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Dá-me lume



Hoje acordaste como se fosse o último dia de aulas na quarta classe ou como se fosses fazer uma viagem de comboio para praia. Saíste de casa bem cedo e o sol de inverno carioca fez as vezes do verão do hemisfério norte. Mas não havia jornais com as manchetes mais importantes do dia, não viste a inclemência selvagem de Cristiano Ronaldo captada numa fotografia de primeira página, não havia bandeiras estioladas nas fachadas carcomidas da Calçada de Santana. Antes, na tua rua, via-se o Tejo. Agora vês o Corcovado. Hoje o céu está tão cristalino como uma gota de LSD e há uma frase que te roda na cabeça desde ontem:

"Dá-me lume".

Foste dormir a pensar na palavra "lume", tão poética como prosaica, usada todos os dias em esquinas, mesas de café, casas de strip. "Dá-me lume."

Ontem falaste com um amigo, de Lisboa, que te contou como a cidade fica mais gira e atrevida nos Santos, como se namora nas ruas, os fins de tarde que se prolongam até de madrugada, manchas na roupa, pássaros despertando as praças, um pequeno-almoço numa pastelaria antes do sono e um derradeiro pedido: "Dá-me lume."

Hoje acordaste a pensar que "Dá-me lume" é muito mais que uma frase batida, que tem qualquer coisa de antigo, que condensa mais séculos que livros de História e que, de alguma forma, tem a ver com a tua agitação infantil desta manhã.

É dia de jogo e gostas que esteja sol, como se fosse princípio de verão e, mais uma vez, todo o teu dia se focasse apenas nesse evento. Nada mais terá muita importância, abandonas a vida como se saísses em andamento, suspendes o resto de ti, queres outra vez essa euforia, esse roer de unhas, o sabor da cerveja entre jogadas e outro cigarro a saltar para a boca: "Dá-me lume", dirás, sem sequer tirar os olhos da televisão.

Dá-me lume: os teus amigos num tasco lisboeta, Camões escrevendo poemas de amor, os cigarros - Português Suave - roubados e fumados clandestinamente com o teu irmão numa casa abandonada, essa inquietude matinal nos dias em que ias de férias com amigos, parando em estações de serviço para tomar o pequeno-almoço, partilhando a leitura dos jornais desportivos com os companheiros de viagem, alguém olhando para a TV da cafetaria e alertando para reportagem sobre o jogo da seleção. E alguém dizia: "Dá-me lume."

Estas manhãs de sol e jogo: é como fazer oito anos, como vestir uma camisa branca e saber que só se chegará a casa de madrugada, é como tocar na perna do amigo antes do apito inicial e dizer: "Dá-me lume."

O que eu quero é a viagem. O fogo dos dias singulares e saudosos. O lume dos poetas e o lume dos apaixonados.


Hoje, se me sinto mais menino, se percebo melhor tudo o que implica ser português e dizer "Dá-me lume", é porque é dia de jogo. E, só por isso, já devo muita coisa ao futebol.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

poema do facebook




Empatas o tempo até que seja hora de ir buscar a pizza. Imaginas romances de três volumes, a vida inteira entre páginas, ilusões de grandeza subitamente interrompidas por vídeos de comediantes americanos, posts, tags, a densidade das mensagens (se comparadas com a leveza de um like). Ponderas pornografia mas há um link de desporto que tens de seguir.

Mais uma window, mais um tab, um tablet, um gadget, um like, um deslike, share me again em pedaços e enche a minha carência como a pequena que comia chocolates.
Mais janelas se abrem
aqui
 e                                         ali
bichos que apitam, que zunem e explodem toda tua atenção.

Assim não dá, pá

Querias fazer poesia enquanto esperavas pela pizza?

Pois escuta: nem de wc, nem de shopping mall, nem de dona de casa:

a tua poesia
(je suis desolé)
é
mesmo
de rede social

Reality check

No meio de tanto ruído, é um comediante que faz as vezes de sábio. Ele fala dos Estados Unidos, mas funciona para muitos outros países. They own us. The gamed is rigged. They don't give a fuck about us.