sexta-feira, 15 de junho de 2012

Série canções que viram ficções: Cangote, de Céu




Ela pedia-lhe que fizesse tudo devagar, que respirasse fundo várias vezes e que reparasse na luz do meio da tarde entrando pela varanda, as portas abertas, a mata do morro criando uma sintonia de pássaros, folhagem e insetos estalando de calor. Ela pedia-lhe que abrandasse os gestos, que se desligassem todos os aparelhos elétricos, que não houvesse música, apenas o fôlego de ambos, a sucção da saliva, pele roçando nos lençóis, os cabelos e o cheiro dela presos na barba dele, dedos alongando-se sobre os mamilos. E se o corpo dela parecia crescer lentamente, ampliando-se a cada toque, tudo o resto encolhia em seu redor, não havia celulares gritando mensagens, uma moto suturando o silêncio da rua sem ninguém, não havia sequer uma suspeita de trânsito, campainhas, ou 24 novos emails na caixa postal. Era só ela, o centro do seu corpo, a boca dele.

Tudo se desvelava com a languidez das transas pós almoço, o balanço entre a sesta e a tesão, o torpor do sangue e o intumescer da carne, livres de relógios, como se pudessem ficar ali até que anoitecesse e depois dormissem nus, sem sair da cama nos próximos dias.

Ela estendia-se, dilatava-se, por vezes parecia que entrava pela mata adentro, enlaçando troncos, formando raízes, qualquer coisa de ancestral, um grito, algo que a fazia muito mais bicho da terra.

Então, ela regressava e diluía-se, colando-se nele, derramando-se. Os lábios encostavam-se ao pescoço dele, e o nariz parecia respirar subaquaticamente através do cangote do homem que a apertava junto de si e que nunca lhe disse: "Temos de ir" ou "Não adormeças" ou "Tenho um jantar de família."

Dormiam e ela mantinha-se encaixada no cangote: o cheiro, a jugular pulsando ainda do esforço, o cafofo da malemolência.

Ele saía sempre primeiro - assim ela lhe tinha pedido desde que se começaram a encontrar. Ficava mais meia hora na casa emprestada por uma amiga que vivia em Berlim. Um duche rápido, dez minutos diante do espelho, a mão apertando uma mama, nada, mas desde que a irmã fora operada que todas as semanas ela dormia com um médico que conhecera no hospital, durante as visitas. Encaixada naquele cangote sentia-se segura, expansiva, com tempo para estar.

E quando ele saía, ela punha-se avaliar o corpo diante do espelho, andava nua pelo quarto como já não fazia há anos, ia para a varanda fumar, esperando ver um mico, um tucano, um saci pererê.

Ela vestiu-se, despejou o cinzeiro, saiu para a rua.

Tinha de ir buscar um filho ao karaté e passar no supermercado para comprar parmesão porque o marido ia preparar uma pasta para uns amigos estrangeiros que escreviam livros ou salvavam o planeta ou eram apenas ricos.

Assim que ela ligou o celular, o aparelho vibrou. Era o seu médico, dizendo que tudo estava bem com os resultados de check up.

Ela entrou no trânsito, teve de desviar-se de um van tresloucada, várias pessoas buzinavam, alguém ouvia música que fazia abanar os vidros, o celular começou a apitar mensagens e voltou a tocar, a vibrar, a explodir. Era o marido: explicou-lhe com detalhe o que ia cozinhar e pediu-lhe, como era hábito, que ela escolhesse um nome para o prato.

Ela disse: "Cangote".

E se, após desligar, chorou, ela mesmo vos diria que não foi de tristeza.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Série Música Portuguesa Para Brasileiro Ouvir: António Variações

Cabeleireiro transmontano que rasgou a tradição reprimida de Lisboa, bicha talentosa com longa temporadas em NYC, mais à frente do seu tempo que contraceptivos na idade média, auto didacta,  pioneiro da malograda AIDS, letrista do cacete e costureiro que transformou vestidos de Amália, oferecidos pela própria, em figurinos para concerto.






Poema colagem do mundo de hoje em manchetes


Duques de Palma longe de Espanha nas férias

La mala hierba foco de la discordia

Mais um esqueleto de vampiro

CR se acuerda de Messi

"E aí comeu?", tem pré estreia

Alexandra Figueiredo: "Entre mim e o Rui só há amizade."

Angela Merkl stands firm

Viciada em silicone pôs óleo de soja no bumbum

Depois do seio, Madonna mostra o rabo em concerto

Rita Pereira faz nova tatuagem

Crise prejudica doentes de cancro

How broccoli got on the Supreme Court menu

Presas por mostrarem seios em campo de golfe

66 dead in car bombings targetting Shiite pilgrimage

Wagner, aún vetado en Israel

Polvo Paulo retira-se da carreira de "adivinho"

 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O dia em que voltei a sonhar com futebol





para o meu irmão caçula



Não estavas lá e, no entanto, falas desse golo como se houvesses esperado nas filas sobre-lotadas do antigo Estádio da Luz, debaixo de chuva, para ver a elegância de Rui Costa planando sobre o relvado, a forma como a bola avançava graciosamente se lhe tocava, o seu corpo de planador abrindo as asas, um jeito de correr que fazia o jogo mais bonito, e o chuto em que a força e a beleza, misturadas na quantidade exata, levaram a bola a passar por cima do guarda-redes, disparada de fora da área, para fazer rugir o estádio e estremecer o cimento armado da Catedral.  

Portugal ganhou esse jogo, com a Irlanda, por três zero (até Cadete marcou um golo) e conseguiu apurar-se para o Europeu de Inglaterra, em 1996.

Não estavas lá. Tinhas sete anos, tal como eu quando assisti à derrota de Portugal, com a França, em 84. Não estavas lá, mas falas desse jogo como se tivesses estado. Talvez porque te falei dele várias vezes, talvez porque também muitas vezes tentei imitar o Rui Costa quando chegavas da escola e jogávamos na entrada de casa, fazendo da garagem a baliza e escavacando as flores nos canteiros.

(Anos antes, quando eras ainda mais pequeno, jogávamos com uma bola de ténis na cozinha)

A primeira vez que te levei ao futebol foi para ver um Benfica - Sporting, e o Jardel deixou-nos o azedume de um empate nos últimos minutos. Mas é nesse jogo contra a Irlanda, é no esplendor desse golo de Rui Costa, que sinto que o futebol primeiro nos uniu.

E se andava desmotivado com o jogo, melhor, com a palhaçada que hoje rodeia o jogo, lembrei-me de como te contava coisas do tempo do Valdo, do Mozer, do Vitor Paneira, de uma meia final contra o Marselha, do pontapé canhão do Carlos Manuel, em Estugarda. Mas hoje és tu que me dizes qual é o onze inicial do Benfica ou quem será o jovem sensação deste Euro.

Sabes, zango-me amiúde com o futebol, mas regresso sempre. E se o futebol me ajuda a estar mais perto de ti, se de cada vez que houver um Euro ou um Mundial ou o Benfica ganhar o campeonato, eu puder sentir-me tão próximo como me sentia rematando contra a porta da garagem (e tu de luvas, equipado como um guarda-redes), como me sinto sempre que te conto o golo do Rui Costa nessa noite de aluvião e absoluta felicidade, então manterei para sempre um pouco de inocência futebolística, essa busca pela emoção e beleza pura do jogo, sem comentários, sem análises, sem repetição, só o golo de Rui Costa, as suas asas de garça abrindo e fechando para celebrar o golo, saltando para fora do campo, eu e tu nas bancadas, afogados de chuva e irmandade, eu e tu, mesmo que nunca lá tenhas estado, eu e tu e um golo celebrado em conjunto.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Paqueras prováveis de defuntos ilustres: Luís de Camões




Quiosque no calçadão, posto 8

Luís de Camões: "Provai, Senhora, em mim vossas cruezas, que aqui tendes uma alma oferecida."

Menina skater: "Oi?"

Luís de Camões: "Tanto de meu estado me acho incerto, que em vivo ardor tremendo estou de frio.

Menina skater: "Frio? Com esse solzão ? Você está fumado?"


Luís de Camões:  "Se me pergunta alguém porque assim ando, respondo que não sei; porém suspeito que só porque vos vi, minha Senhora."

Menina skater: "Esse sotaque... É da Rússia? Veio pró Rio + 20?"

Luís de Camões: "Julga-me a gente toda por perdido, vendo-me tão entregue a meu cuidado."

Menina skater: "Onde você está hospedado?"

Luís de Camões: "Tenho o mundo conhecido, e quase que sobre ele ando dobrado."

Menina skater: "É viajante?"

Luís de Camões: "Todo o mundo é composto de mudança. Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança. Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem, se algum houve, as saudades."

Menina skater: "Você fala bonito. Eu tenho uma banda, não quer escrever umas letras pra gente?"

Luís de Camões:  "O gosto de um suave pensamento me fez que seus efeitos escrevesse."

Menina skater: "Então passa lá em casa mais logo. Fumamos um, criamos beleza."

Luís de Camões:  "Eu nunca vi rosa em suaves molhos, que pera meus olhos fosse mais fermosa."

Menina Skater: "Você é malandro. E essa barba, essa pála no olho. Vem cá, esse look meio sado maso é de verdade ou é só para inglês ver?

Luís de Camões: "Aquela cativa, que me tem cativo."

Menina Skater: "É mesmo, posso te amarrar?"

Luís de Camões: "Se as penas com que Amor tão mal me trata permitirem que eu tanto viva delas."

Menina Skater: "Você me está deixando com mais calor."

Luís de Camões: "Amor é fogo que arde sem se ver."

Menina Skater: "Amor é prosa, sexo é poesia."

Luís de Camões: "Com furor sobejo, Vos foi beijar na parte onde se via."

Menina Skater: "Promete?" Então vamos num motel."











segunda-feira, 11 de junho de 2012

Auto retrato em escrita automática e sem correção

Estás numa cozinha de um apartamento da Gávea e posas para o auto retrato como em pequeno fazias teatrinhos para a família, escrevendo, dirigindo, dando ordens aos primos mais novos.Tarde demoraste a perceber que o lado mais sonoro da tua presença, as palavras e palavras saindo dos cotovelos, uma certa tendência para te debruçares e entrares e estares com o corpo todo em tudo o que dizes e fazes, tarde percebeste, dizia eu, que não havia nada a fazer, que não era uma falha mas uma inevitabilidade. E quando assim foi, deixaste de ser tão babaca.

Percebeste tarde, mesmo que para isso fosse preciso gastares dinheiro em terapia e varreres noites de várias cidades, e derrapares nas curvas das drogas, do sexo e da disponibilidade para a densidade das coisas efémeras. 




Estás na Gávea, no Rio de Janeiro, a máquina apontada a ti, sem saberes muito bem por que o fazes, mas suspeitando já que, dali, sairão também palavras. É que acabaste um romance de trezentas e tal páginas, muitos meses de escrita, uma mudança de país, e é normal que procures um substituto para o teu vício diário. Agora, que terminaste o livro, procuras sucedâneos, e tiras umas fotos, escreves uns textos, fazes pesquisa para o próximo romance. Mas há um vazio que já não te recordavas, un bajón pós extâse, o som seco do cadafalso.

Fazes a fotos como se quisesses ser um criminoso, pensas: mug shots, entrando já na pele dos personagens do livro que te preparas para escrever. Nesse mesmo dia foste dar um mergulho na hora de almoço e, olhando o morro, levantado do chão pelas ondas, sentiste esse fio de alegria que perpassa a pele e que incendeia sinapses.

Foi-se a  diversão das fotos numa cozinha da Gávea, choveu nos últimos dias e, se um mergulho desses, seria numa rua inundada do Rio. De repente, há um punho cerrado na tua garganta, o medo depois do esforço, um regresso ao mundo da realidade que, nos últimos meses, só visitavas algumas horas por dia, se por caso ias pagar uma conta ou fazer o jantar.

E é por isso que estás aqui, mais de uma semana após as fotos e obscurecido pelo dilúvio dos últimos dias. Estás aqui a escrever de ti para ti, tentando fazer a mudança de pele o mais depressa possível, vomitando palavras, chorando falhas, curando costuras e purgando vidas passadas.



Há uma fotografia da tua mãe na janela da sala onde escreves. Olhas para ela, voltas a olhar para o texto e sabes que nunca poderá ler aquilo que escreves, jamais acompanhará o galope do teu discurso quando falas das personagens, não ouvirá, ao fim do dia, as páginas que escreveste. No romance que acabaste de escrever há uma frase: 


'Quero escrever livros e histórias e bilhetes de amor, quero escrever em paredes, em corpos, em cadernos. Quero escrever como me jogava da prancha mais alta, como corria para as bolas de Berlim, nas tuas mãos, numa praia a sul, quero escrever como por vezes me afligem as saudades do meu pai, do meu irmão, de ti. Porque se escrevo é também para que vivas mais tempo, para que vivas os anos que te faltaram.'

Há outra mulher na sala onde escreves. Não está na fotografia, tem curvas e lábios que te despistam. Foi ela que ouviu, todos os finais de tarde, a leitura em primeira mão das páginas que ias escrevendo. É ela que escuta, que espera, que condescende, que entende. E não é fácil entender isto que fazes, a forma como te esfolas com as tuas convicções, o corpo aberto para o mergulho no espaço.

No Rio de Janeiro, onde as emoções se hiperbolizam com a velocidade com que a fruta amadurece nas árvores, és mais índio, mais preto, mais português, mais carioca, mais bigode e tronco nu na bicicleta e idas à praia sem havaianas e dono do teu tempo e do teu sonho.

A vida foi dura mas é agora mais simples, o som da bicicleta rolando na orla, livros para ler e a esperança de, quando fores de férias a Lisboa, ainda ver algum jacarandá em flor.

Tiras a foto, mudas de pele, vais voltar a escrever. Fazes tudo isso tão sonoramente como quando em criança batias os dedos nas teclas de uma máquina de escrever ou saltavas, pulavas, gritavas para que a tua mãe te pudesse ver, da janela, enquanto esperavas a carrinha da escola.

Não sabes porquê mas lembras-te agora daquilo que ouviste, ao entrar numa igreja, na primeira vez que estiveste em Nova Iorque. Dizia um pastor: "Não sou ainda o homem que gostaria de ser, mas também já não sou o homem que era ontem."

Hoje, depois de muito tempo sem trocar um email, falaste com o amigo de infância que estava contigo nessa igreja, em Nova Iorque, o amigo que te disse, caminhando na Central Park West: "Eu viveria nesta cidade." Concordaste com ele e um ano depois mudaste para lá.

Hoje falaste com esse amigo, depois dos dias de chuva  e do final do livro, e sentiste que ele entendia o caminho escolhido, que tinha orgulho em ti.

(Olhas outra vez para a foto na janela da sala)

E foi então que percebeste que neste auto-retrato havia muito mais que a tua cara, as tuas palavras, o teu número de mudança de pele em público. Nessa cara que trazes, nas dores nas costas e nas tatuagens que perdem a cor, no incisivo lascado, na cicatriz na testa, na torrente do teu sangue, estão todas as pessoas que, como o teu amigo, te fazem recuar, à velocidade da luz, para as longas tardes de verão da infância.

(Olhas para a mulher no sofá da sala).

És um artista inacabado, um homem em movimento, o miúdo que acredita que é sempre possível amar mais, curtir mais, conhecer mais, és um auto retrato incompleto, qualquer coisa a caminho de

qualquer

coisa

         inquieta
nova

a caminho de





         

 

 

   

Música do acaso

Conheço o João há dez anos e parece que nos conhecemos desde crianças. Trabalhámos no mesmo restaurante em NYC, já emprestámos dinheiro um ao outro, escrevemos o primeiro romance ao mesmo tempo, entre levantar pratos, noitadas em Manhattan e tesão pela escrita.

Há três meses, quando entrei como editor na Língua Geral, olhei para os lançamentos agendados e lá estava "O Bom Inverno", que será lançado no Brasil no final deste mês.

Foi, claro, uma alegria. Um acaso feliz. Para celebrar tal acaso, deixo aqui o texto que escrevi sobre o dia em que o João ganhou o Prémio Saramago. Pode ser lido aqui. 


ps - o link do blog não está a funcionar, fica aqui: http://www1.ionline.pt/conteudo/29415-o-sucesso-e-os-politicos-os-escritores-vivem-sempre-na-medida-do-seu-fracasso