Conheço o João há dez anos e parece que nos conhecemos desde crianças. Trabalhámos no mesmo restaurante em NYC, já emprestámos dinheiro um ao outro, escrevemos o primeiro romance ao mesmo tempo, entre levantar pratos, noitadas em Manhattan e tesão pela escrita.
Há três meses, quando entrei como editor na Língua Geral, olhei para os lançamentos agendados e lá estava "O Bom Inverno", que será lançado no Brasil no final deste mês.
Foi, claro, uma alegria. Um acaso feliz. Para celebrar tal acaso, deixo aqui o texto que escrevi sobre o dia em que o João ganhou o Prémio Saramago. Pode ser lido aqui.
ps - o link do blog não está a funcionar, fica aqui: http://www1.ionline.pt/conteudo/29415-o-sucesso-e-os-politicos-os-escritores-vivem-sempre-na-medida-do-seu-fracasso
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Mãos dadas
Para a cimeira Rio + 20, as delegações europeias estão procurando hotéis baratos. As delegações africanas e árabes só querem coberturas sumptuosas e disputam entre si as suites presidenciais dos cinco estrelas do Rio de Janeiro.
(Lembro-me das visitas da primeira-dama de Angola, a Lisboa, rodeada de um séquito despesista, apenas para fazer uma jornada intensiva de compras. Também me lembro que o presidente de Angola, tinha, há uns anos, o avião mais caro do mundo.)
Os europeus em crise (por exemplo os portugueses) estão agora usando menos o carro. Já os chineses largam as bicicletas e sonham com automóveis de luxo.
Mas como vai agora um europeu, ou um americano, após tantos anos a comportar-se como uma praga de gafanhotos, apontar o dedo aos países emergentes, dizendo que é preciso gastar menos, aproveitar mais e não esbanjar recursos?
Não é fácil. Mas também é muito cara de pau vir para uma cimeira de ambiente e sustentabilidade competindo por luxo, suites imperiais e esbanjado petrodólares.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Diário de um ficcionista
Neste final de tarde, o Vidigal parece o morro místico de uma saga de romances fantásticos. Sento-me na garupa de um mototáxi e galgamos as pedras escorregadias de chuva, serpenteando por entre carros e pessoas, até entrarmos na rua 3. Silvo o meu assobio de identificação e Gonçalo vem abrir-me a porta. Tem barba de islamita ou de hippie e prepara-me um café. Veste uma t-shirt ruça, onde o boneco verde dos Bolicaos, com barba de vários dias, diz: "Tou de férias."
Metemos a conversa em dia e ele pega no violão. Toca música que compôs para letras em que colaborámos: "Vagão Rosa", "Sem sorte nem Nova Iorque", "Namoradinha Farrapa." O outro habitante da casa acorda de uma sesta. André, alemão de Woslfburg que contraria o cliché da falta de sentido de humor dos germânicos, esfrega os olhos e serve-se de café. Ficamos a conversar sobre a crise na Europa, sobre o jogo de futebol em que se enfrentarão os nossos países, no Campeonato Europeu, este fim-de-semana. Falamos de disparates, histórias de cama, o tempo que fará nos próximos dias.
Este é o meu clube de cavalheiros. Não precisamos de conhaque ou de salas exclusivas. Todos calçam havaianas e há quem mije de porta aberta. André saiu num artigo da Veja Rio, por ter produzido o primeiro mapa do Vidigal (ver aqui). Gonçalo anda obsessivo com as aulas de violão, as suas unhas mostram a dedicação ao estudo, o sorriso desvela a felicidade de andar a fazer aquilo que mais ama.
Digo-lhe que o entendo, foi assim com o meu romance. A malta é pobre mas a malta diverte-se. Antes pobres que de rodillas.
Cantamos "Nem às paredes confesso" e André mostra-nos uma música alemã, dos anos 20, que rapidamente Gonçalo dedilha no violão. Três europeus tocam e cantam músicas tradicionais dos seus países num apartamento da favela do Vidigal com vista para o oceano (embora nesse dia, na varanda, não se visse mais que uma muralha de nuvens e as luzes desfocadas na noite do morro).
Três europeus que deram o salto mas que não se esquecem de onde vieram.
André conta-nos que a música é sobre um "pequeno grande cacto" e começamos a rir. Na varanda, vejo passar um cesto preso numa corda e, assobiando a música do cacto, levanto-me e indago o que se passa. Alguém entrega compras à vizinha de cima. Ela sobe os víveres no cesto. Cheira a humidade na folhagem e a regresso. Já se pode ver o mar e centenas de casas na encosta iluminam o morro, dão-lhe uma silhueta.
Despeço-me dos meus amigos e começo a descer. Em menos de três horas estarei numa festa de aniversário, de uma bonita e delicada escritora, descendente de europeus de leste. Irei oferecer-lhe quatro pequenos cadernos, de cores diferentes. Falarei sobre emigração, com o seu irmão, coreógrafo que vive em Paris, e escutarei atento o marido da escritora contar a história de um cantor francês (brega e muito popular), que entrou em depressão, durante umas filmagens na Amazônia, porque ninguém o reconhecia . Conversarei com um poeta que toma ayahuasca e que escreve com força e ternura e verdade. Tudo isto numa varanda com mar ao fundo e navios fazendo fila para entrar no porto, colossos piscando como vagalumes a caminho da fortuna extractiva do Brasil.
Os amigos, o cenário, as histórias. O vinho, a maconha, uma mão pegando na minha. O elevador, o táxi amarelo de janelas abertas, os beijos, a Lagoa.
Quem disse que a vida não pode aspirar a ser arte?
Metemos a conversa em dia e ele pega no violão. Toca música que compôs para letras em que colaborámos: "Vagão Rosa", "Sem sorte nem Nova Iorque", "Namoradinha Farrapa." O outro habitante da casa acorda de uma sesta. André, alemão de Woslfburg que contraria o cliché da falta de sentido de humor dos germânicos, esfrega os olhos e serve-se de café. Ficamos a conversar sobre a crise na Europa, sobre o jogo de futebol em que se enfrentarão os nossos países, no Campeonato Europeu, este fim-de-semana. Falamos de disparates, histórias de cama, o tempo que fará nos próximos dias.
Este é o meu clube de cavalheiros. Não precisamos de conhaque ou de salas exclusivas. Todos calçam havaianas e há quem mije de porta aberta. André saiu num artigo da Veja Rio, por ter produzido o primeiro mapa do Vidigal (ver aqui). Gonçalo anda obsessivo com as aulas de violão, as suas unhas mostram a dedicação ao estudo, o sorriso desvela a felicidade de andar a fazer aquilo que mais ama.
Digo-lhe que o entendo, foi assim com o meu romance. A malta é pobre mas a malta diverte-se. Antes pobres que de rodillas.
Cantamos "Nem às paredes confesso" e André mostra-nos uma música alemã, dos anos 20, que rapidamente Gonçalo dedilha no violão. Três europeus tocam e cantam músicas tradicionais dos seus países num apartamento da favela do Vidigal com vista para o oceano (embora nesse dia, na varanda, não se visse mais que uma muralha de nuvens e as luzes desfocadas na noite do morro).
Três europeus que deram o salto mas que não se esquecem de onde vieram.
André conta-nos que a música é sobre um "pequeno grande cacto" e começamos a rir. Na varanda, vejo passar um cesto preso numa corda e, assobiando a música do cacto, levanto-me e indago o que se passa. Alguém entrega compras à vizinha de cima. Ela sobe os víveres no cesto. Cheira a humidade na folhagem e a regresso. Já se pode ver o mar e centenas de casas na encosta iluminam o morro, dão-lhe uma silhueta.
Despeço-me dos meus amigos e começo a descer. Em menos de três horas estarei numa festa de aniversário, de uma bonita e delicada escritora, descendente de europeus de leste. Irei oferecer-lhe quatro pequenos cadernos, de cores diferentes. Falarei sobre emigração, com o seu irmão, coreógrafo que vive em Paris, e escutarei atento o marido da escritora contar a história de um cantor francês (brega e muito popular), que entrou em depressão, durante umas filmagens na Amazônia, porque ninguém o reconhecia . Conversarei com um poeta que toma ayahuasca e que escreve com força e ternura e verdade. Tudo isto numa varanda com mar ao fundo e navios fazendo fila para entrar no porto, colossos piscando como vagalumes a caminho da fortuna extractiva do Brasil.
Os amigos, o cenário, as histórias. O vinho, a maconha, uma mão pegando na minha. O elevador, o táxi amarelo de janelas abertas, os beijos, a Lagoa.
Quem disse que a vida não pode aspirar a ser arte?
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Sands Casino, Las Vegas, 1966
Joe Cortese detestava a cidade, dizia que areia do deserto se pegava nos dentes e que o fedor dos derrotados na roleta se entrelaçava no perfume das prostitutas da calçada. Além do bilhete que iria comprar, no mercado negro, no bar do hotel, Joe não conseguia encontrar nada que pudesse levá-lo a acreditar nas possibilidades daquela noite. Tinha, mais do que tudo, um trabalho para fazer.
No bar do hotel, Bobby Snout, amigo de um amigo, gordalhufo que cheirava a pizza com extra queijo, perguntou: “Tu também és paisano? De onde? Calábria?” Joe terminou o whisky, pegou no bilhete que acabara de comprar e disse, olhando a viscosidade de Bobby Snout de alto a baixo:
“Sou português, filho de beirões da raia.”
“O que é isso, México?”
“Vocês italianos só conhecem a ponta encardida da bota e a estação de comboios para Nova Jérsia.”
“Um pouco de respeito. Estás fora do teu território, ragazzo.”
Joe apertou o braço contra o coldre e sentiu o couro nas costelas, a coronha da sua pistola pressionando-se contra a carne. Não gostava de Las Vegas, precisava de outro whisky, não tinha mais cigarros e, apesar do bilhete no bolso, teria que perder parte do espetáculo para finalizar a missão que o levara de Sullivan Street, Manhattan, até aos corredores do Sands.
Joe esticou a mão e disse: “Estou na reinação.”
E Bobby Snout riu como um porco dos desenhos animados.
“Estivéssemos em Nova Iorque”, pensou Joe Cortese, “e fazia morcela de sangue contigo”.
Joe andava a tentar controlar a raiva desde que, certa noite, num bar de East Village, viu um jamaicano dar um par de estalos numa miúda mulata e resolveu interferir, arrastando o mán pelos rastas até à rua, onde repetidamente enfiou a cabeça do rapaz na caixa dos jornais enquanto dizia: “Consegues ler o teu obituário?”
Joe gostava de mulheres africanas, mas perdia as estribeiras quando confundiam os portugueses com sul-americanos ou porto-riquenhos.
Respirou fundo para não voltar atrás e apunhalar a mandíbula de Bobby Snout com a garrafa de Veve Clicquot que tinha visto dentro de um balde com gelo no balcão.
Dirigiu-se para a sala de espetáculos e perguntou onde eram as casas de banho. Não teria tempo sequer de sentar-se. Nas mesas, mulheres bonitas e bêbedas davam risadas e sentiam o fôlego de atores de cinema que lhes sopravam propostas de arrepiar a pele do pescoço.
Apagaram-se as luzes, ouviu-se o tilintar do gelo até que uma bateria encheu a sala e a voz anunciou:
“The Sands is pround to present a wonderful new show of a man and his music. The music of Count Basie and his great band. And the man… is Frank Sinatra.”
Ao ouvir os aplausos Joe sentiu-se como na peça do liceu em que fora protagonista. A raiva diluiu-se no sangue e no whisky.
Sinatra apareceu em palco: “How did all these people get into my room?”
Entre as canções “Come fly with me” e “I’ve got you under my skin”, Joe pensou na cabo-verdiana que conhecera num bar de Hoboken. Ela ia ensinar-lhe português, coisa que os pais nunca fizeram, e deixara que os dedos dele tocassem os seus mamilos por cima do tecido num parque de estacionamento.
Joe engoliu o whisky e foi para a casa de banho. Numa das cabinas encontrou uma mochila preta. Confirmou o conteúdo e dirigiu-se para o quarto. Aí mudou de roupa. Vestiu-se como um polícia, deixou a arma debaixo do colchão e pegou no revólver que vinha num saco de papel dentro da mochila.
Saiu do quarto e caminhou até ao fundo do corredor. Confirmou o número, os dedos bateram na madeira com força e disse: “Polícia, têm de sair, houve uma ameaça de bomba.” Ouviu vozes lá dentro e um homem dizendo: “Não abras.”
Tarde de mais. Assim que a mulher abriu a porta, Joe empurrou-a para o chão. O homem levantou-se e foi a correr para a casa de banho. Joe puxou a mulher pelos cabelos (um dos seus modus operandi preferidos) e foi dar com o homem tentando procurar algum tipo de arma.
“Vais matar-me com um mini sabonete?”, disse Joe. Em seguida virou-se para a mulher: “Tu, vai buscar um travesseiro.”
E só então percebeu que ela era negra como certos felinos escovados muitas vezes, uma negritude densa e cintilante. Viu como ela andava languidamente embora as mãos lhe tremessem. Viu como regressou, apenas de calcinhas e com os mamilos descobertos (os mesmos mamilos da cabo-verdiana de Hoboken). Viu como ela rogava pela vida mesmo sem dizer nada.
Joe trancou a porta da casa de banho com todos lá dentro. Olhou em seu redor como se verificasse que a família inteira estava presente para o jantar de Natal. Depois deu duas cronhadas poderosas na cabeça do homem, que estava de cuecas, sentado na borda do jacuzzi.
“Merda”, disse Joe para si mesmo enquanto o homem lhe fugia das mãos e submergia nas bolhas do jacuzzi. O sangue maculou a água como corantes de gelado na boca de uma criança. Joe puxou-o para fora com dificuldade, caindo, durante o processo, e ficando molhado até à cintura.
“Foda-se”, disse, perdendo a compostura. E olhou para a mulher: “Desculpa, não costumo ser tão mal educado. Se a minha mãe me ouvisse.”
Com o homem no chão da casa de banho, Joe passou a asfixiá-lo com o travesseiro. Começou a sentir uma fraqueza na cabeça, um ardor nos bíceps, talvez fosse dos whiskys que bebera sem jantar, talvez estivesse a ficar velho para usar as mãos naquele tipo de serviços. Pensou na cabo-verdiana, em Frank Sinatra, que já devia ter cantado “One more for the road”.
Gotas de suor frio rasgavam-lhe as costas. Um fio de cuspo escorreu pela boca. Uma veia inchou nas têmporas.
Joe Cortese puxou do revólver e disparou três tiros: um na cabeça, dois no peito.
Em seguida apontou a arma para a mulher.
“Como te chamas?”
“Maria Magdalena.”
“Não, a sério.”
“A sério, o meu avô era italiano.”
“Gostas de Sinatra?”
“Muito.”
Ela obedeceu a todas as ordens e pegou rapidamente na roupa. Mudaram-se para o quarto de Joe. Vestiram-se. Ele enfiou o revólver do crime e o uniforme na mochila preta e desceram para a sala de espetáculos. No caminho passaram pelo bar, onde um empregado pegou na mochila e desapareceu com ela, fazendo um sinal com a sobrancelhas que substituiu as palavras: “Não te preocupes, ninguém vai encontrar isto.”
Entraram quando Sinatra terminava o monólogo cómico. Sentaram-se numa mesa, Joe pediu champanhe e ela perguntou:
“Porque estás a fazer isto?”
“Porque quero que leves alguma coisa boa desta vida.” Joe apontou para o palco e pediu silêncio. Sinatra dizia:
“I think I'd better sing before I turn 51.”
E cantou “You make me feel so young”.
No final do concerto ele meteu-a num carro e dirigiu-se para o deserto.
Fazia frio e a areia rangia nos molares de Joe. Ela ficou diante dele. Frente a frente.
Joe julgou ouvir "Angel Eyes” tocando ao fundo. Lembrou-se de como, após Sinatra cantar o verso “Watch me as I disappear”, todas as luzes se apagaram, a escuridão total na sala, como a noite no deserto, como a pele e os olhos da mulher diante dele.
Joe apertou o gatilho. A noite fez-se dia.
terça-feira, 5 de junho de 2012
O atirador especial
Salvador Martinha seguiu o exemplo de milhares de jovens portugueses e mandou-se para o Brasil. Não foi de vez. Mas durante três semanas foi o único estrangeiro a actuar nos clubes de comédia de São Paulo e Rio de Janeiro. Pelo meio houve tempo para beber cervejas na praia, para falar da sua necessidade de ser um mito e da sua tentativa simulada de suicídio.
Hugo Gonçalves, no Rio de Janeiro (texto publicado na GQ)
Já terminou o verão carioca, mas
Salvador Martinha, no dia de folga dos espectáculos que tem na cidade, quer ir
dar um mergulho em Ipanema. Já terminou o verão, mas faz sol e calor e o
humorista português de 28 anos trouxe consigo os calções de banho, o desejo de
beber uma cerveja no areal enquanto contempla o morro Dois Irmãos e uma
permanente atenção para os tiques, as manhas, a linguagem, os eventos do
dia-a-dia protagonizados pelos seres humanos. É por isso que, na primeira hora
de conversa, o humorista suspende oficiosamente a entrevista e faz perguntas ao
jornalista: sobre o Rio, sobre os cariocas, sobre os portugueses imigrantes no
Brasil.
Quando caminhamos no calçadão e
Salvador vai ouvindo as respostas às suas perguntas sobre a vida indígena, é
como se estivesse a processar a informação, a arrumá-la, a ver o que pode ser
utilizado e o que é palha. É um estado constante estado que, mais tarde, me
confessa ser inevitável: “Não consigo desligar, sou um sniper”. Esse desejo
permanente de observação permitiu-lhe criar piadas sobre a realidade brasileira
após duas semanas em São Paulo. Peço que me dê exemplos. Salvador notou como
nos menus dos restaurantes o “cheese burguer” é apresentado como “Xburguer”.
Aliás tudo o que leve queijo tem o X (xis) a substituir o “cheese”.
Salvador finaliza a história com
uma pergunta: “E agora digam-me, se ‘xis’ é de cheese, xoxota tem queijo?”
Ordem e Progresso
No calçadão, um turista vira a
cabeça quando ouve o sotaque de Portugal e fica a olhar para Salvador Martinha
com a cara de quem acabou de ver alguém que conhece da televisão. Minutos mais
tarde, na praia, o turista – português como se suspeitava – aproxima-se com
três cervejas e, educadamente, felicita o humorista e oferece-nos a latas
geladas. Salvador: “Muito obrigado, você assim tão simpático nem parece
português. Os portugueses são sempre mais simpáticos fora de Portugal.”
No tempo que demora beber três
rodadas de cerveja, os portugueses falam das diferenças entre brasucas e
portugas, da nova vaga de imigração lusitana para o Rio, da imagem deturpada
que cada um dos países tem do outro e – não vale a pena enganarmos ninguém –
das belas mulheres da praia de Ipanema.
Continuamos o caminho, depois dos
mergulhos, pelo calçadão e subimos ao terraço de um hotel para ver a vista.
Salvador está encantado com a cidade e com o Brasil: “Isto é muito bom, estes
gajos estão a bombar.”
O que em Portugal era uma
suposição para Salvador, tornou-se numa evidência assim que aterrou em São
Paulo: “ Eu tinha a ideia de vir para cá, sabia que o mercado estava a
explodir, queria ver se aqui também conseguia ter piada. Estou a ver que sim,
estou a ser bem recebido. Se fosse um português em Nova Iorque, ok, era mais um
estrangeiro. Aqui é diferente. Eles não estão habituados a ver humoristas que
não sejam brasileiros. E eu falo a mesma língua. Quando entro em palco há uma
atenção diferente do público. Há muitos brasileiros que nunca ouviram um
português, como aquelas velhas que não viram o mar.”
Começa a anoitecer e o Rio põe-se
agitado com os motores no trânsito, o calor subindo do alcatrão, pessoas e mais
pessoas cruzando as ruas do Leblon em hora de ponta. Salvador continua atento
ao bulício da cidade. Mas fala de outra urbe, São Paulo, com 20 milhões de
pessoas, onde passou as últimas semanas.
“O Impacto foi brutal. A ideia
que temos dos comediantes brasileiros é errada – baseada no Tom Cavalcante, no
“Sai de Baixo”, no Caco Antibes. Temos ideia de uma comédia muito popular. Aqui
entrei nos meandros da comédia urbana e estamos a falar de grandes comediantes,
mesmo muito fortes.”
Vida de humorista
Sentamo-nos numa esplanada da
avenida Ataulfo de Paiva. Salvador explica como funcionam os clubes de comédia
em São Paulo, alguns com mais de 200 lugares, e a vida dos humoristas de stand
up na megametrópole: “Eles apresentam-se todos os dias. Nós em Portugal fazemos
um espectáculo em Lisboa, outro no Porto e já está, passamos mais tempo a dar
entrevistas do que a fazer shows de stand up. Eles têm milhares de actuações.
No mesmo dia podem apresentar-se em vários bares.”
Depois Salvador foca-se na maldição
que aflige os comediantes de São Paulo:
“Nenhum deles consegue ter uma relação. Estão sempre ocupados a trabalhar
entre as oito e a meia-noite. É um problema que não tem solução. Contei isto à
minha mulher, por telefone, e ela disse-me: ‘Por isso é que tu´vives cá’ [em
Portugal].” Fim de conversa.
No Brasil, tal como em Portugal,
o nascimento do stand up como fenómeno popular começou ao mesmo tempo, no
início da primeira década do milénio. Mas Salvador alerta que em Portugal se
começou na televisão, com o programa “Levanta-te e ri”: “Foi um erro, íamos lá
morrer. Eles aqui começaram nos bares. Prepararam-se.”
Correr para trás
Salvador estreou-se em stand up
no “Levanta-te e ri”: “Faz nove anos dia 31 de maio, correu mal. Quando comecei
tinha 20 anos, era o mais novo do programa. Não tinha noção de nada. Não tinha
amigos artistas, não sabia bem onde me estava a meter. Escrever um texto? Eu
sabia lá que era preciso escrever uma piada, eu era o gajo que os amigos
achavam engraçado. Eles diziam ‘Ele tem mais piada ao vivo do que na TV”, que é
o mesmo que estarem a dizer ‘Foste uma merda’. Comecei com um sprint para
trás.”
Salvador põe-se mais sério, não
para garantir gravidade às palavras que aí vêem mas porque o tema parece ser
importante no seu percurso como humorista: “Tendo em conta como isto vai acabar,
e eu acho que sei como vai acabar, foi importante começar com um sprint para
trás. É muito diferente começar em grande do que começar como eu comecei. O
Seinfeld dizia: ‘Devo o que sou aos meus insucessos’. É muito perigoso quando
tudo corre bem.”
Olhando agora para o insucesso da
sua primeira apresentação, Salvador diz: “Era muito miúdo, é importante ter
massa, ter histórias para contar. Além disso não tinha piadas boas. Só mais
tarde é que assimilei o que estou a dizer. Nessa altura o elogio e uma crítica
entravam a mil e saiam a dez mil. Toda a gente acha que tem piada.”
O rapaz que queria ser um mito
O curso de Marketing, no IADE,
era apenas um álibi, um lugar onde ir, “estavam lá pessoas”, diz Salvador, que
não ia às aulas. “O que fazia? Tentava ser engraçado durante o curso. Antes de
conhecer esta vida era muito engraçado fora de palco, criava histórias para ser
um mito. Queria ser um mito. No IADE, simulei o meu suicídio.”
Interrompendo o professor,
levantou-se e anunciou para todos: “Desculpe, mas esta aula não está a correr
como eu quero e vou-me suicidar.” Saiu pela janela e desapareceu. Tinha-se
agachado. Depois levantou-se e disse: “Estou a brincar professor”. Noutra
ocasião disse que fora escolhido para a novela “Olhar da Serpente”.
“Tenho ainda a mesma necessidade
de aplauso, mas agora tornei-me menos engraçado na vida do dia-a-dia, tenho
local e hora certa para ser engraçado. A vida assim é mais fácil.”
Depois de quatro ou cinco
actuações no “Levanta-te e ri” deixou de ser chamado. Teve uma fase em que
andou “um pouco perdido.” Só anos mais tarde percebeu o que tinha feito de
errado. “Ainda hoje me encontram na rua e dizem ‘Brutal, eras dos melhores do
programa’. Não era nada.”
Fundou os “Alcómicos anónimos”
com Rui Sinel Cordes, Alexandre Romão, João Miranda e José beirão. Escreviam e
apresentavam skecths e stand up ao vivo, em teatros. Faziam de tudo um pouco:
“Eu gosto de fazer várias coisas, produção, direcção, estar envolvido com
tudo.”
Seguiu-se a Sic Radical, com Fogo
Posto, Pokerada e Alex & Salvador. Por fim, o canal Q, onde teve durante
dois anos um programa – “Especial” – que foi substituído pelo novo “Nada de
especial.” O canal Q permitiu-lhe ter um espaço para fazer tudo o que queria:
“Vivo da comédia, estou la há dois anos, fiz mais de cem talk shows de uma
hora. Posso fazer tudo. Já comecei uma entrevista com dois minutos de silêncio.
Chego a casa contente”.
Stand Up
No dia seguinte
entro na sala de teatro do Shopping da Gávea. Mais tarde Salvador mostraria o
seu espanto com a beleza, o ar perfumado, e a frequência do shopping – os seus
olhos sempre atentos aos humanos e aos seus hábitos. Encontrei o humorista num
canto, junto ao palco, com os outros comediantes do grupo “Comédia em Pé”, que
roda o Rio de Janeiro, em várias salas, com um alinhamento de humoristas de
stand up. Salvador chegou ali porque, como diz, não espera o telefone tocar.
Diz mais: “Esta oportunidade surgiu-me como todas as oportunidades surgem em
Portugal. Fui eu que a criei. O telefone nunca toca eu é que o faço tocar.
Ninguém recebe um email de alguém a dizer ‘Vi a tua piada num blog e quero
contratar-te, estão aqui 2500 euros e vais ser capa da Visão como o novo génio
da comédia’.”
Salvador
conheceu Fernando Caruso, um famoso humorista brasileiro, em Lisboa. “Ficámos
amigos, houve química e acabámos a mamarmo-nos na boca.” Salvador ri-se. “Não,
a sério, demo-nos muito bem e ele disse para eu passar por cá que ele me
arranjava espectáculos.” Salvador ligou mesmo. E durante três semanas subiu ao
palco quase todos os dias.
Fernando Caruso
está no grupo de artistas que espera a sala encher para começar o show. Tem,
como Salvador, uma cara incomum. Talvez por isso se dêem tão bem. Foi ele que,
no Brasil, abriu as portas dos clubes e salas de teatro ao português – “e até
as portas de casas de má vida”, disse Salvador.
Inútil seria
tentar replicar aqui a prestação de Salvador. Mas posso garantir que a
audiência se riu muito, que uma velhinha atrás de mim disse várias vezes, para
a amiga, “Ele é tão bonitinho”, e que é no palco que o simulador de suicídios
com cara estranha melhor sacia, com dedicação, arte e pertinência, a sua
necessidade de aplausos.
Em seguida fomos beber copos numa
esplanada com toldo enquanto a chuva tropical tomava a cidade. Em determinado
momento Salvador perguntou a Jorge Vaz Nande, escritor português, que vive em
São Paulo e que colaborava na produção de um documentário sobre a viagem de
Salvador para o canal Q: “Onde está o meu caderninho?” E aprontou-se a escrever
nele alguma coisa. Salvador Martinha: um sniper nunca desliga.
Maldita cocaína
Fazendo pesquisa para o próximo romance, lendo um Domingo Ilustrado de 1925, deparei-me com esta preciosidade: "Eu já sabia que muitas das mulheres que vegetam na chamada "vida de club", se entregavam imbecilmente, n'uma idiotice alvar, ao nefasto vício da cocaína. Apontaram-me algumas, nas mezas do Monumental, do Mayer e do Bristol e, de certa vez "vi" uma d'essas mulheres refratárias á vida trabalhosa, levar ás narinas o venenoso pó, côr de neve, quasi imperceptível ao contacto dos dedos, e que, posto ao serviço de um temperamento amoral, vai pouco a pouco, minando a morte mais atroz, dando em troca um prazer que ninguem explica, mas que, em sintese, se pode egualar ao do tabaco."
O texto ensina ainda que cada grama custava 20 mil réis e tem uma deliciosa advertência no fim. Vale a pena ler.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
O dia em que deixei de sonhar com futebol
No último mês de aulas do ano letivo de 1987-88 só uma coisa nos comandava: futebol. Fazia calor e nem a brisa da praia do Tamariz entrando pelo recreio adentro impedia que as patilhas ficassem encharcadas, as golas da t-shirts encardidas e o ténis arruinados por tanto chuto ao poste, falta à canela, carrinho junto à linha de canto. Escolhemos equipas fixas e assim jogámos todos os dias, sem alterações, como se disputássemos o Campeonato da Europa desse ano. E para novelizar ainda mais o dramatismo e a emoção de tamanho evento, fazíamos a coleção de cromos da Panini.
Nesses
jogos de recreio, calhou-me ser da Holanda, e embora desejasse que me
chamassem Marco van Basten, tínhamos Jaime, o Pescador,
na equipa. E Jaime, que, mesmo quando jogava de galochas na lama tinha ginga para sentar
três adversários enquanto galgava para a baliza, colheu sem contestação o nome
do avançado holandês que marcaria um golo, sem ângulo, no jogo da final contra
a URSS, com uma precisão que parecia acaso, e com um aprumo que
só aqueles que voam podem alcançar.
No pelado
da escola fui Kieft – um avançado de segunda linha que marcou o golo da vitória
contra a Irlanda. E mesmo que padecesse, aos 11 anos, de um arruaceiro espírito
competitivo e quisesse ser o melhor marcador, estar ali, receber a bola de
Jaime, correr sem que parecesse que alguma vez me fosse cansar, era felicidade
suficiente para que celebrasse a maior das dádivas: faltar ao almoço na cantina
para jogar uma hora e 40 minutos de seguida. Esse
início de verão, quando as aulas estavam prestes a terminar e o Europeu passava
na televisão sendo recriado depois no campo do colégio, é uma das minhas
melhores recordações futebolísticas.
Não é a primeira vez que vou
acompanhar um campeonato da Europa ou do Mundo fora de Portugal. Mas é a
primeira vez que não me importa estar longe durante esse período. Mais: estou
feliz com a distância. Pensei que esse alívio
resultasse apenas da lonjura do ruído e da histeria típicos desta época de
tesão de mijo com a selecção: as reportagens sobre patetices, os jogadores
portando-se como personagens de um reality show, os anúncios de bancos, de
telemóveis, de tintas, com atletas (atores?) da seleção e referências ao Euro.
Há muito tempo que essa verborreia deixou de ser emoção para ser patologia. Mais ou menos como
o homem que tem uma linda mulher na cama mas prefere a pornografia do
computador. E, como os alcoólicos e os drogados, há muitos que recusam ver a
futebolização do país, essa fome de saciar o vazio, a raiva e a frustração. Já
não é alegria que se procura. É um anti-depressivo, um segredo mágico, uma
esperança vã.
Milhões de
pessoas depositam a sua fé em algo que é corrupto, que é dirigido por bandidos,
interpretado por donzelas caprichosas e que alimenta a mediocridade do
jornalismo. Admiramos, seguimos, celebramos e ocupamos as nossas vidas com algo sujo. Belo,
às vezes, mas na maioria das vezes sujo. É uma metáfora fácil para o país que somos? É, mas soa-me
tão verdadeira que magoa como talheres roçando num prato de loiça.
Adoro futebol e, não sendo
ingénuo para pensar que conseguirei capturar alguma vez a liberdade e a alegria
supremas naquele pelado em 1988, rasgando os jeans e sonhando que um dia estaria
na final do Europeu, lamento já não ser capaz de entusiasmo algum com esta seleção
– a que mais gasta em hotel, a que é liderada em campo por um egomaníaco.
Tal como Cristiano Ronaldo,
o país parece passar por um processo de MichaelJacksonização,
isto é, quando alguém começa a viver num mundo particular, só seu, alheado da
realidade.
Javier Marías escreveu que “O
futebol é a recuperação semanal da infância.” Quero contiuar a acreditar que
sim, mas se é para viver absorto, prefiro o recreio da infância do que a nação
zombie de agora onde (my oh my) se organizam corridas de apoio à seleção (?) e
se filmam os jogadores como se fossem protagonistas do Jersey Shore e tudo parece
tão falso e inconsequente como o pito da Barbie.
Conta-se que Artur
Agostinho, sportinguista, foi ver um jogo de Benfica e logo nos primeiros
minutos Eusébio marcou um golo monumental. O radialista levantou-se, mostrou o
bilhete e disse: “Este já está pago, agora vou ali comprar outro.”
Duvido que me venha a lembrar do Euro 2012. Mas se um dia tiver filhos é a história de Artur Agostinho, e o golo de Van Basten e a primavera de 88 num pelado junto à
praia, que lhes vou contar.
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