Para o Jordi e Maíra
“Qual é a história?”
É isso que te oiço perguntar numa esplanada de Paraty, na noite do teu casamento.
“Qual é a história?”
Não
te quis dizer logo qual era a história, além disso, a torpeza da língua
cachaceira não permitia grandes eloquências. Mas a história (a minha
visão da história) começa há muitos anos, longe do lugar onde
conversávamos, distante de Paraty, porto fundado por portugueses em
redor de 1600 e onde escolheste casar. Talvez a história pudesse até
começar nessas ruas de pedras traiçoeiras e casas tão brancas que podiam
estar na costa alentejana.
(Não deixo de pensar como a
brancura do casario contrasta com o sofrimento de todos os que passaram
ali, desembarcados após meses de viagem desde África (lanhos vermelhos
de sangue e ossos forçando a pele), antes de terem um dono e um destino
escravo. Nunca mais regressariam a casa. Estavam fodidos de cabo a rabo.
Também não deixei de pensar, quando vi as crianças índias de hoje,
comendo aquilo que os turistas dispensam nas esplanadas, como são belas
as suas peles pintadas contra a alvura da cal, e como são pobres (logo
eles, que há séculos sabiam viver da terra e do mar), como os seus genes
fazem parte de uma lista muito antiga de fodidos – no Brasil colonial e
pós colonial, é tão longa essa lista de fodidos. Há tanta beleza e
tanto descaso. Tudo aqui é emocionalmente excessivo.)
Paraty,
como tu próprio comentaste naquela noite, é um porto (e ponto)
importante na história que quero contar. Mas comecemos, como avisei, bem
longe, na Polónia, porque este relato, meu irmão, não é jornalístico ou
cronológico. É o relato de alguém que, como tu, pergunta com
frequência, ao longo da viagem: “Qual é a história?”
Dizia
eu: Polónia, Segunda Guerra Mundial e um escritor, judeu, tímido, que
contactava com o mundo a partir de cartas. Bruno Schulz foi levado para o
gueto, mas caiu nas graças de um oficial nazi e chegou a pintar as
paredes dos quartos dos filhos do seu protetor. Há uma versão comumente
aceite sobre a morte de Schulz, embora existam dúvidas sobre o real
desenrolar dos eventos. Supostamente, o benfeitor de Schulz teria
fuzilado um judeu, que, tal como o escritor, também tinha um guardião
nazi. Certa tarde, Schulz ia na rua e, sem aviso prévio, levou um tiro
na cabeça. O assassino foi procurar o protetor do morto para lhe dizer:
“Tu mataste o meu judeu, agora eu matei o teu.”
Soube tudo
isto num ônibus para Paraty, numa sexta-feira de trânsito selvagem e
Rodoviária em alvoroço, gente saindo à pressa do Rio de Janeiro, pessoas
amachucadas pela semana de trabalho e pelas sovas que, todos os dias,
levam nos transportes da cidade: a espera, o bufar dos escapes, a
condução letal dos motoristas de ônibus, vans e táxis.
Sabia que a viagem ia ser longa, e mesmo que o modelo do ônibus fosse uma inspiração – chamava-se
Marco Polo –, não suspeitava ainda qual seria a história. Nas minhas orelhas, os
headphones sussurravam uma voz feminina. Nicole Krauss, escritora americana, falava, num
podcast,
de Bruno Schulz, dizendo que nunca ninguém esquece o dia em que
descobre aquela prosa tão peculiar e fantasista, por vezes filigranada
como os brincos de uma minhota. Preparava-me, através da voz de Nicole,
para estrear-me na ficção do escritor malogrado. Ela preparava-se para
ler um dos seus contos. Pensei se, daqui a vinte anos, quando encarasse o
nome “Bruno Schulz”, seria capaz de recordar onde tinha ouvido as suas
palavras pela primeira vez – cortando a escuridão do mato que ladeava a
estrada, a caminho do teu casamento, num lugar onde nunca estivera
antes, antevendo já que, em algum momento durante o fim-de-semana,
perguntaria “Qual é a história?”.
O leitor de mp3 estava atafulhado com
podcasts
para me entreter, mas também para me abstrair do perigo lá fora. Várias
vezes fechei os olhos para não perceber como o motorista se aproximava
do abismo, fazendo curvas apertadas a alta velocidade. Entretanto,
Nicole Krauss falava-me ainda sobre o conto de Schultz,
Father’s last escape,
comentando o universo obsessivo do escritor: a constante referência à
doença prolongada e à morte do pai. Nesse texto, o pai de Schulz, morre
vezes sem conta. O escritor ressuscita-o, diz que ele reencarna nas
expressões faciais do papel de parede ou que se transforma num
caranguejo e aparece durante as refeições da família, sapateando as
tenazes no chão da casa. Pressenti, entre uma e outra morte, o conforto
da vida familiar e a esperança. Mas, uma e outra vez, é a dor da morte
repetida que enche de sangue as palavras de Schulz.
Era um
texto bonito e um texto triste, mas era sobre a morte, e ainda que eu
fosse a caminho de um casamento (um começo, não um fim), não consegui
esquecer o que o José Eduardo Agualusa escreveu sobre ti num dos seus
livros:
“Jordi Burch perdeu o pai aos 16 e a mãe aos
vinte. Perdeu ainda o mais velho dos dois irmãos. Este somatório de
tragédias podia ter feito dele um sujeito cínico, inclinado às sombras,
propenso à solidão. Pelo contrário, fortaleceu-o:
— O pior que me podia acontecer, já aconteceu. Agora tenho o direito a ser feliz.”
Confrontado com a obsessão de Schulz, com o constante revisitar da morte do pai, tirei os
headphones
e pus-me a olhar pela janela. Não sabia de cor toda passagem do livro
de Agualusa (tive de procurá-la em casa), mas não esquecera as tuas
palavras: “O pior que me podia acontecer, já aconteceu. Agora tenho o
direito a ser feliz.” E foi a pensar no nessas palavras, que afastei a
impressão desconfortável causada pelas palavras de Schulz.
(“Agora tenho o direito de ser feliz”)
Tu,
tal como Schulz, pareces pôr tudo o que tens e o que amas naquilo que
fazes, mas, ao contrário de Schulz, e apesar de já teres fotografado
miséria, morte e desespero, há em ti, e na forma entusiástica como
enfrentas cada história, uma enorme libertação, muito mais do que um
peso a carregar ou a revisitação do sofrimento. Tu procuras a luz, a
mesma luz de que precisas para fotografar as tuas histórias.
Essa
certeza aliviou-me e senti menos receio de um despiste na estrada para
Paraty. Tens o direito de ser feliz, como tu próprio disseste. Não era
um motorista de ônibus, doido varrido dos carretos, que iria estragar o
fim-de-semana com uma tragédia.
“Português entre as vítimas de um despiste de ônibus” não seria a manchete desta história.
Quando
a viagem é longa (quase seis horas) e o ar condicionado cria uma
atmosfera de shopping dentro do ônibus, há sempre um alívio quando
pisamos terra firme e, por fim, a humidade, entranhada de maresia e
mato, se pespega na pele como melaço, percorre o nariz, os brônquios e
os pulmões, enchendo tudo de possibilidades e esplendor tropical.
Nessa
minha primeira noite em Paraty. ficámos até tarde na praça da Matriz,
bebericando cachaça e falando desarticuladamente. Demos um abraço.
Casavas no dia seguinte. No regresso a casa, as ruas brancas, com
janelas coloridas, pareciam-me todas iguais. Dei voltas e voltas. Pensei
que ali os bêbedos forasteiros jamais encontrariam suas camas
temporárias. Precisei de ajuda para chegar ao destino, ainda que tenha
passado várias vezes diante da estalagem sem me dar conta. Tudo piorou
quando perguntei a que horas era a cerimónia.
“Dez da manhã”, respondeu alguém cruelmente.
Dormi
como uma pedra que se joga num poço. Nem sequer aqueles que engolem
indutores de sono se apagam tão completamente. Sonhei com uma ideia para
um conto de terror, onde vários amigos se perdiam em Paraty, após uma
noite de festa. Não era uma boa ideia. Muito menos seria essa a
história.
De manhã, abrindo as janelas e vendo, pela
primeira vez, a vila iluminada pelo céu da costa, percebi que não havia
mesmo espaço para narrativas sombrias ou personagens desgraçados. Eram
nove da manhã e as nuvens, se as havia, teriam absorvido toda a
escuridão do Lado Negro da Força. Tudo era luminosidade trespassando
corpos, casas e oceanos. Até os saguins que visitaram a mesa do café da
manhã, no pátio da estalagem, sabiam disso. O dia era de festa.
O
barco que saiu do porto transportava convidados do Rio Grande do Norte,
do Ceará, de Pernambuco – uma senhora explicou-me com afinco que o bolo
de rolo era património
palpável pernambucano. Havia paulistas e
cariocas; portugueses e angolanos emigrados no Brasil. Havia
portugueses que viajaram de Lisboa e que, em pouco tempo, se sentiram em
casa. Havia alemães que, certo e seguro, apanhariam um escaldão durante
o passeio de barco. Havia escritores, jornalistas, vários contadores de
histórias e um sem fim de fotógrafos. Havia tantos sotaques e maneiras
diferentes de dizer as coisas, uma miscigenação que apregoas mas também
protagonizas, porque além de português e catalão, o tio da noiva
garantiu que eras já brasileiro e nordestino.
E depois há
Maíra, a tua mulher. A primeira vez que a vi, numa livraria carioca,
dei-me conta, de imediato, do seu sorriso que se estende pelo corpo
inteiro. Maíra sorri inteiramente.
Não sei até que ponto,
num casal, as coisas em comum são decisivas para o triunfo do amor. Mas
Maíra tem, como tu, esse sorriso que é também abraço, um sorriso que
começa e acaba com luz – e não falo da alvura impecável dos vossos
dentes. Falo da mesma luz que crias e recrias a fim de contar mais uma
história. Maíra: a metáfora mais sublime desta viagem transatlântica, a
mulher onde, como disse o próprio pai, “se encontra o poder do Brasil, a
mistura de três raças”, a maravilha da bagunça genética, acrescento eu
agora.
No dia em que deverias receber, Jordi, soubeste
dar. Estamos mal habituados contigo. E da tua generosidade, garanto-te,
fica algo muito mais marcante e memorável que a prosa de Schulz. Quando,
daqui a vinte anos, tropeçar no nome do escritor judeu, saberei onde
estava ao escutar as suas palavras pela primeira vez. Mas será a viagem a
Paraty, o teu casamento, muito mais que a singularidade do estilo de
Schulz, que me farão recordar esses dias. Não o pesar da finitude, mas a
alegria da descoberta.
No barco, realizada a cerimónia,
os teus convidados saltaram para o mar como moleques em primeiro dia de
férias. Com ilhas tropicais ao fundo e balanço marítimo, a composição
dos elementos parecia tão magnífica como certos quadros dos mestres:
crianças brincando na proa, mulheres enroladas em cangas como princesas
egípcias, gente nadando para a praia deserta, o torpor da boa vida, a
densidade de tudo o que é efémero afirmando-se no gosto das caipirinhas,
nas especiarias da moqueca, nos beijos na boca depois de um mergulho.
Enfrentas
o lixo do mundo no teu ofício mas procuras sempre o brilho mais límpido
da história, aquilo que acrescenta, não aquilo que subtrai. Talvez por
isso sejas uma criatura anacrónica nesta era de apodrecimento
jornalístico. Não te vejo, no entanto, amargado, desistente, contaminado
pelo facilitismo. Sabes, tão bem como eu, que aqueles que encontram
aquilo que amam e fazem disso a sua vida, são privilegiados. Há quem
transforme essa dádiva em arrogância. Para ti, é uma graça, e por isso o
dia do casamento foi tão fiel a tudo aquilo que tens feito. Um dia
bonito, num lugar magnético, com centenas e centenas de histórias para
contar entre as pessoas que ali estavam. O angolano que, num sotaque tão
fragante de mangueiras e vogais abertas, nos alertou: “Comes uma coisa
que gostas e dizes ‘Soube-me bem. Aqui no Brasil ninguém percebe.” A
portuguesa que, em noite de lua cheia, confessou que a sua primeira
palavra não foi ‘mãe’, ‘pai’ e muito menos ‘escanifobético’, mas sim
‘lua’. O repórter brasileiro que, com a mestria de um Truman Capote
tropical (e bem mais viril) me manteve preso na lâmina do seu relato,
contando-me sobre a investigação de um homicídio que saiu nas notícias.
Se,
como afirma um escritor americano que tanto gosta de Portugal, as boas
histórias só aparecem a quem sabe contá-las, tu és a prova mais concreta
dessa verdade. Eu regressei de Paraty, do teu casamento, ainda mais
rendido ao milagre redentor da beleza, esperançoso nos avanços da
humanidade, capaz de escrever uma triologia de romances e cinco odes
triunfais. Cheguei ao Rio atropelado por cinco horas de ônibus e em
estado de ressaca acumulada. Mas cheguei carregado de histórias.
Qual é, então, a história, Jordi?
É
tão simples, a sério, tantos quilómetros viajados para te dizer somente
isto: é uma história de amor. Mas isso, meu irmão, tu sabias desde o
princípio.