No dia de aniversário do Rio de Janeiro (ontem), escrevi sobre como o Carnaval me ajudou a perceber melhor a cidade, o tempo carioca e até os portugueses
História e as lições do passado Entrei no Carnaval como os primeiros portugueses entraram no Rio de Janeiro, devagar e com cerimónia, com interesse, mas pouco empenho. O Rio foi descoberto em 1502 mas apenas 53 anos mais tarde, quando os franceses já tinham montado colónia no território, os portugueses, liderados por Estácio de Sá e disparando canhões, expulsaram franceses e mataram índios tupinambás, decidindo que ali seria fundada a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Demoraram meio século mas vieram com tudo.
Também demorei. E só dei uma de Estácio no final da tarde de terça-feira de carnaval – os meus amigos já tinham ido aos melhores blocos, levavam dias de festa; eu estava relutante porque na última semana tinha enfrentado, fosse no supermercado ou num passeio pela orla, as multidões nas ruas, lixo e mais lixo no chão, gente apertada e suada, qualquer coisa entre a Queima das Fitas e o Oktoberfest, embora com 30 graus e menos roupa. A cidade emperra, ônibus, vans e táxis rolam sobrelotados ou ficam empatados no trânsito. Tentei entrar no Carnaval a fundo, mas o pré Carnaval, que começa duas semanas antes, já tinha drenado o meu entusiasmo.
Cheguei tarde, mas vou a tempo
Tal como os portugueses, que demoraram para tomar o Rio de Janeiro, demorei a perceber o encanto, a importância e o significado do Carnaval para um carioca.
O meu momento Estácio de Sá aconteceu quando a tarde tombava para a noite, no Jardim Botânico, no bloco Último Gole. Terça-feira de carnaval. Quando tudo deveria estar acabando, estava, afinal, apenas no começo. De t-shirt e calções, levava uma mascarilha de má qualidade que, confesso, estava mais para o S&M do que para o Zorro. Como vi poucas pessoas mascaradas, comentei que talvez abdicasse do disfarce ambíguo. Uma amiga, que nos dias anteriores se fantasiara de Marylin Monroe e cowgirl, disse: “Esse não é o espírito. No Carnaval vale tudo. “
E eu fiz o que ela mandou.
Coisas que aprendi com o Carnaval
Há sempre gente em todo o lado, a qualquer hora, como se numa cidade de zombies foliões que não dormem. Durante o Carnaval mais de cinco milhões de pessoas saíram para rua. A cidade arrecadou 650 milhões de dólares.
O Carnaval não são dois dias. São três semanas, com pré e pós carnaval. E uma dessas semanas é tão intensa – para miúdos e graúdos – que parece uma viagem de finalistas, umas férias com amigos, uma oportunidade para não pensar em mais nada se não em folia. Os jornais fazem manchetes e cadernos dedicados ao carnaval. É disso que se fala, é isso que interessa.
Para um português, que nos últimos tempos foi, como os seus compatriotas, recipiente de sermões sobre austeridade e contenção, todo aquele desprendimento carnavalesco me assustou – e o desemprego? e os impostos? e a mão na cabeça em arrependimento? Talvez por isso só tenha entrado no Carnaval a fundo na quarta-feira de Cinzas. E fui mais obediente à sabedoria da minha amiga – “Esse não é o espírito. No Carnaval vale tudo” – do que ao discurso oficial da parcimónia. Atirei-me para o bloco “Me beija que sou cineasta” a fim de perceber o que é isso do carnaval carioca.
Talvez seja arriscado para um estrangeiro tentar decifrar aquilo que outros levam anos vivendo. Mas como estrangeiro, habituado a carnavais de kispo e salas de aula com zorros encasacados e princesas de galochas, é assombroso perceber a importância destes dias na ordem natural das coisas cariocas.
Ninguém romantiza namoros de Inverno. É no verão que a memórias mais se impregnam na carne. E aqui o Carnaval é no verão, durante as férias grandes. De dezembro até ao carnaval a cidade é mais eléctrica, as pessoas estão mais na rua, há mais lugares onde ir e coisas que fazer. É um constante crescendo que atinge o climax com o Carnaval.
E agora, depois do êxtase, as crianças regressam à escola, há menos gente na praia, a cidade fica mais serena ao entrar no outono. Por isso, o Carnaval é a felicidade antes da obrigação, as coisas boas antes dos deveres, o excesso antes da vida regular.
Vi velhos pulando como se nos loucos anos 20, vi e senti a pulsão das massas se cantam um samba em conjunto, vi uma boa disposição geral, uma simpatia e disponibilidade, apesar dos bêbebos, das toneladas de lixo, da exasperação das filas, de acordar às oito da manhã por que passa um bloco diante do prédio tocando muito mais alto do que a aparelhagem do vizinho.
Vi actores beijando actrizes, actores beijando actores e actrizes beijando actrizes. Vi mulheres vestidas de trepadeira com botox nos lábios, vi o povo invadir a exclusividade do Leblon e a cidade tornar-se tão democrática como entupida. Vi gente tão criativa e com sentido de humor como o rapaz que, por estar dentro de um elevador, sobreviveu a uma derrocada de três prédios, em Janeiro, no Centro. Neste Carnaval, o rapaz saiu para a rua mascarado de elevador
No dia de aniversário do Rio de Janeiro, com céu azul e 39º de máxima, vi crianças no regresso à escola e desapareceram da rua, por fim, os banheiros químicos do Carnaval. Reabrem-se as agendas. Diz-se por aqui que “agora sim começa o ano”. E perante a responsabilidade desta evidência, o Carnaval faz agora muito mais o sentido.
Na quarta-feira de cinzas não se matam os modos exagerados nem há parcimónia. Na praça Santos Dumont, pai da aviação, os foliões do bloco “Me beija que sou cineasta” disparam para os céus com a música, a maconha, a temperatura a bater nos 30 e muitos, os sakolés chupados entre bisnagadas e beijos na boca a desconhecidos. Vi pelo menos um actor, que já fez de bandido, tripando na multidão – seus olhos faziam adivinhar o outro lado do espelho, onde as pessoas e as plantas e até o lixo eram muito mais bonitos.
Mas nada que se compare com o grupo de amigos, homens e mulheres, que, todos os anos, vestidos de noiva, desfilam no bloco Boitatá sob o efeito de ácidos (ao pé disto saltos de pára-quedas são para meninos).
O “Me beija que sou cineasta” é um bloco de artistas e, já se sabe, essa gente gosta de explorar e experimentar. Não é Sodoma nem Gomorra, nem os beijos são tão vulgares como no carnaval de Salvador. Mas a galera é livre, bonitinha e procura emoções.
Como os artistas são adeptos do ócio, este bloco não desfila, fica sempre no mesmo lugar, o que transforma a praça numa festa a meio da tarde, ao ar livre, onde aquilo que muitos consideram exageros, são, para outros, uma expressão da sua natureza, uma celebração do belo, um palco para as coisas boas que a vida e o corpo nos oferecem – uma amiga disse que, passada uma semana a vestir fantasias, regressou ao seu guarda-roupa de sempre e percebeu o aborrecimento dos dias comuns.
Não era o Eyes Wide Shut. Mas eu tinha uma máscara e entrei num restaurante onde o empregado, português e solidário com o seu patrício, me abastecia e reabastecia de rum porque a cerveja de lata vendida na rua devia ser placebo.
Foi então que ela apareceu, brilhando como as princesas, morena e de lantejoulas douradas, cabelo longo, caminhando na minha direcção em fast forward. Vinha da fila do banheiro e, mais bélica que lasciva, trotou para mim. A minha educação e respeito pelas mulheres impede-me de usar as dimensões da princesa como efeito cómico, mas há coisas que têm graça, por isso que se dane a diplomacia entre sexos: ela era pesada, massiva, com ombros de nadadora. E ainda que, como Mandrake, eu ame todas as mulheres, não esperei que o meu primeiro beijo de sempre no Carnaval carioca fosse um atropelamento.
Voraz e sem dar-me tempo para dizer o que fosse, a princesa não acertou com a boca na boca, dando-me uma queixada e um encontrão que me fizeram cair, qual Kramer, sobre a mesa de comensais lambuzados de picanha e chope.
Quando me levantei, ela já não estava lá. Mas toda a sala olhava para mim e sorria.
Fiz uma pequena vénia para sacudir a vergonha e entrar na onda. O garçon português esperava-me com um rum. Sempre soube que os escritores perdem para os cineastas, os músicos e os Dj’s. Mas não passava ainda das duas tarde e a quarta-feira de cinzas parecia sábado de Carnaval.
Um dia ela vai passar tanto tempo com o filho como passa com iPhone, o terapeuta e o professor de beach ténis. até lá, tem babá para botar o dvd preferido da criança.
dizem que a paixão o conheceu mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
Al Berto
Ele tinha o coração arrancado da caixa torácica, que é muito pior para a saúde do que ter o coração partido. Ele tinha frio em casa – puta Europa e as suas frentes frias, uma cidade amarrada pelo vento, um apartamento apenas com um radiador que, numa noite de whisky solo em demasia, caíra sobre a carpete, iniciara um churrasco de ácaros, colapsara o electrodoméstico. Por isso, ele tinha frio, mas também tinha frio porque, com um buraco no peito e outro na carpete, estava mais susceptível a ser túnel para correntes de ar.
Ele não tinha coração e vestiu um sobretudo, calçou as luvas, saiu para a calçada escorregadia de uma cidade que parecia um banco de nevoeiro, aqui e ali um prédio ou um candeeiro público, o som dos bares e das casa de passe, talvez uma coxa com liga a assomar numa porta, apunhalando a nebulosidade que não parava de se instalar no buraco que ele tinha no peito.
Humidade. Ele era um homem cheio de humidade nos cantos e nos recantos, como a casa de uma velha junto ao mar.
Passou perto do rio e as coisas pioraram. Por trás de neblina que tinha sabor de sal e diesel, ouviam-se marinheiros ao estalo com travestis nas ruas com caixotes do lixo tombados e traficantes providenciando droga marada.
Fazia tanto frio na cidade e atrás daquele sobretudo, fazia tanto frio que ele levantou o braço para um táxi, procurando o aquecimento e os estofos. Mas já se sabe que por vezes as coisas estão irremediavelmente fodidas e o taxista explicou que o aquecimento se escangalhara há duas horas. Por trás do sobretudo sentiu algo viscoso, não uma dor escorrendo mas uma falta.
Ele enfiou a mão dentro do sobretudo, atravessou o corpo, tocou nos estofos. Nada de nada e, no entanto, a rádio tocava When you’re smilling, por Louis Armstrong, The Majestic Years.
“Suck my cock”, disse ele para o Universo, numa língua que não era a sua mas que, por ser franca, chegaria aos ouvidos do Buda ou da Mãe Natureza ou do Jezzy Creezy ou de quem fosse responsável pela cena fodida do amor que arranca corações.
Ele entrou no aeroporto, comprou uma passagem, sentiu-se como uma mula colombiana de cocaína quando os seguranças pediram que tirasse o sobretudo. Apreenderam o isqueiro que ele trazia no bolso das calças, mas foram indiferentes ao buraco que estava no centro daquele homem que apertava o cinto nas calças, com dificuldade, tal e qual a criança que se debate com os cordões dos ténis.
Um espectáculo tão triste como a mulher que ele vira semanas antes, chorando dentro de um carro, no parque de estacionamento de um hospital. Mas ele já tinha a sua dor e, como diz a canção, a dor é minha, a dor não é de mais ninguém.
Quando aterrou noutro continente nevava e os táxis eram iguais aos táxis dos filmes. Primeiro caminhou pelas ruas ventosas, jornais voadores despenhavam-se na cara das pessoas, havia muitos homens a beber álcool em garrafas pequenas, enfiadas em sacos de papel, ao mesmo tempo que esfumaçavam beatas e anunciavam o apocalipse.
Ele entrou no bairro onde não se ouvia um carro. As árvores, tão brancas de neve, tinham sido copiadas de um livro de banda desenhada japonesa. Ele subiu os degraus e tocou à campainha.
Fazia menos frio dentro daquele apartamento. Ela não disse nada. Foi ao frigorífico, afastou os chocolates e o queijo light, tirou o embrulho de papel, algo que se traz de um talho, um pedaço de qualquer coisa. Depois entregou-lhe o embrulho e disse:
“Devias ter vindo buscar isto há mais tempo.”
Ele abriu o papel melado como se fosse uma bomba. Passara demasiado tempo com aquele buraco. Como seria ter outra vez um coração a bater no peito? Por mais que a pergunta lhe parecesse um título de romance para mulheres mal fornicadas, o seu cinismo não era capaz de vencer a necessidade de sobrevivência. Ele pegou no coração e meteu-o dentro de si, encaixou aurículos, sintonizou ventrículos, apertou-o várias vezes para que voltasse a bombar sangue e calor. Disse:
“Já está.”
E a cidade rebentou de luz como um fogo-de-artifício, em vez de neve as árvores eram mais verdes que uma selva tropical, havia cães na rua e as crianças andavam de triciclo, pais amavam os filhos e visitavam os progenitores em lares de terceira idade.
“Hoje será um bom dia”, disse ele.
“Isto está a ficar um pouco piegas”, disse ela.
E o coração dele falhou um batimento.
Ele abriu o sobretudo. A pulsão dela foi tão poderosa e veloz como a dentada de um bicho: arrancou-lhe o coração outra vez. Ele saiu para a rua e sentou-se nos degraus. Estavam de volta a neve e o frio. Levantou as golas do sobretudo, pegou num cigarro e, com ele na boca, percebeu que não tinha lume. Ela apareceu na janela e atirou-lhe uma carteira de fósforos. Conseguiu acender o cigarro depois de cinco fósforos e olhou para cima, onde ela lhe dizia adeus.
Puxou o fumo e sentiu os pulmões substituindo os prazeres do coração.
Talvez regresse, em pouco tempo e com efeitos definitivos, para recuperar aquilo que é seu.
Uma dia vamos olhar para a proibição da adopção de crianças por casais do mesmo sexo como olhamos hoje para as placas que, em tempos, diziam: "White only."
Chegas quando a tarde se enlaça na noite e há nuvens de mosquitos, como chuva, na contra luz dos candeeiros públicos. Chegas como se saída de um carro de outra época, uma época certamente bela, porque tens cabelo negro de espia ou dançarina de cabaret ou apenas de menina maldosa.
Chegas com um vestido preto e ténis que, com certeza, compraste em Berlim. Deves ter amigos artistas e designers e já beijaste mulheres na boca - ou pelo menos gostarias.
No bar de sucos, os empregados têm a gordura dos fritos na pele; os clientes estão de bermudas e areia nos pés. Mas tu aproximas-te do balcão como se no intervalo da ópera - em vez de champanhe, pedes um açaí.
"Pouco xarope, mas pouquinho mesmo."
E imagino que talvez sejas uma fanática da linha, uma comedora exclusiva das coisas que nos fazem bem, uma chata. Não é apenas isso, é a forma como as unhas vermelhas, há segundos enigmáticas como uma cicatriz, de repente parecem vulgares unhas vermelhas porque apenas se dedicam ao Blackberry.
E no outro lado do balcão, o empregado com cabelo de água oxigenada limpa a telinha do seu celular com um guardanapo, metódico como nunca foi na escola.
Os celulares mataram a solidão da espera. Será que já ninguém se senta num ponto de ônibus ou aguarda um açaí sem procurar a companhia dos outros navegadores da rede?
Ela saca do seu iPhone. Poderosa, ligada, antenada, dentro do esquema, mas fora da caixa. iPhone & Blacberry, a dupla de sucesso que a deixa mais enturmada com tudo. Mesmo tudo. Tudo, tudo, tudo.
Ela pergunta: "Tem Wi Fi?"
Tenho vontade de rir, mas não vou cuspir o suco de melancia. Amachuco o guardanapo que me limpou a boca e atiro-o para o lixo, pensando que podia dizer-lhe que há internet grátis ali ao lado, num shopping, ou então deixá-la enfrentar, sem ajuda de muletas electrónicas, a solidão mais apetecível do final do dia: comer um açaí num bar de sucos, ao balcão, ver os outros, respirar, sair da ondas hertzianas, estar apenas.
Apenas estar.
Despeço-me do moço do bar de sucos, olho para ela, bonita e dedicada ao Facebook no celular, e penso: o mundo virtual é cada vez mais um corta tesão.
Ou talvez seja apenas a sorte de viver numa realidade em que vou deixando de precisar de sucedâneos dessa mesma realidade. "A vida como ela é", declarou Nelson Rodrigues. Isso mesmo: a vida como ela é. No meu caso, e por isso agradeço, a vida empolgante como um livro de aventuras.
Garota do bar de sucos, encanto e desencanto, tão veloz como um post, tão passageira como um twitt, tão dispensável como uma aplicação.
A vida é bela, garota do bar de sucos, por vezes, a vida apenas como ela é, pode mesmo ser bela.