Um dia ela vai passar tanto tempo com o filho como passa com iPhone, o terapeuta e o professor de beach ténis. até lá, tem babá para botar o dvd preferido da criança.
dizem que a paixão o conheceu mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
Al Berto
Ele tinha o coração arrancado da caixa torácica, que é muito pior para a saúde do que ter o coração partido. Ele tinha frio em casa – puta Europa e as suas frentes frias, uma cidade amarrada pelo vento, um apartamento apenas com um radiador que, numa noite de whisky solo em demasia, caíra sobre a carpete, iniciara um churrasco de ácaros, colapsara o electrodoméstico. Por isso, ele tinha frio, mas também tinha frio porque, com um buraco no peito e outro na carpete, estava mais susceptível a ser túnel para correntes de ar.
Ele não tinha coração e vestiu um sobretudo, calçou as luvas, saiu para a calçada escorregadia de uma cidade que parecia um banco de nevoeiro, aqui e ali um prédio ou um candeeiro público, o som dos bares e das casa de passe, talvez uma coxa com liga a assomar numa porta, apunhalando a nebulosidade que não parava de se instalar no buraco que ele tinha no peito.
Humidade. Ele era um homem cheio de humidade nos cantos e nos recantos, como a casa de uma velha junto ao mar.
Passou perto do rio e as coisas pioraram. Por trás de neblina que tinha sabor de sal e diesel, ouviam-se marinheiros ao estalo com travestis nas ruas com caixotes do lixo tombados e traficantes providenciando droga marada.
Fazia tanto frio na cidade e atrás daquele sobretudo, fazia tanto frio que ele levantou o braço para um táxi, procurando o aquecimento e os estofos. Mas já se sabe que por vezes as coisas estão irremediavelmente fodidas e o taxista explicou que o aquecimento se escangalhara há duas horas. Por trás do sobretudo sentiu algo viscoso, não uma dor escorrendo mas uma falta.
Ele enfiou a mão dentro do sobretudo, atravessou o corpo, tocou nos estofos. Nada de nada e, no entanto, a rádio tocava When you’re smilling, por Louis Armstrong, The Majestic Years.
“Suck my cock”, disse ele para o Universo, numa língua que não era a sua mas que, por ser franca, chegaria aos ouvidos do Buda ou da Mãe Natureza ou do Jezzy Creezy ou de quem fosse responsável pela cena fodida do amor que arranca corações.
Ele entrou no aeroporto, comprou uma passagem, sentiu-se como uma mula colombiana de cocaína quando os seguranças pediram que tirasse o sobretudo. Apreenderam o isqueiro que ele trazia no bolso das calças, mas foram indiferentes ao buraco que estava no centro daquele homem que apertava o cinto nas calças, com dificuldade, tal e qual a criança que se debate com os cordões dos ténis.
Um espectáculo tão triste como a mulher que ele vira semanas antes, chorando dentro de um carro, no parque de estacionamento de um hospital. Mas ele já tinha a sua dor e, como diz a canção, a dor é minha, a dor não é de mais ninguém.
Quando aterrou noutro continente nevava e os táxis eram iguais aos táxis dos filmes. Primeiro caminhou pelas ruas ventosas, jornais voadores despenhavam-se na cara das pessoas, havia muitos homens a beber álcool em garrafas pequenas, enfiadas em sacos de papel, ao mesmo tempo que esfumaçavam beatas e anunciavam o apocalipse.
Ele entrou no bairro onde não se ouvia um carro. As árvores, tão brancas de neve, tinham sido copiadas de um livro de banda desenhada japonesa. Ele subiu os degraus e tocou à campainha.
Fazia menos frio dentro daquele apartamento. Ela não disse nada. Foi ao frigorífico, afastou os chocolates e o queijo light, tirou o embrulho de papel, algo que se traz de um talho, um pedaço de qualquer coisa. Depois entregou-lhe o embrulho e disse:
“Devias ter vindo buscar isto há mais tempo.”
Ele abriu o papel melado como se fosse uma bomba. Passara demasiado tempo com aquele buraco. Como seria ter outra vez um coração a bater no peito? Por mais que a pergunta lhe parecesse um título de romance para mulheres mal fornicadas, o seu cinismo não era capaz de vencer a necessidade de sobrevivência. Ele pegou no coração e meteu-o dentro de si, encaixou aurículos, sintonizou ventrículos, apertou-o várias vezes para que voltasse a bombar sangue e calor. Disse:
“Já está.”
E a cidade rebentou de luz como um fogo-de-artifício, em vez de neve as árvores eram mais verdes que uma selva tropical, havia cães na rua e as crianças andavam de triciclo, pais amavam os filhos e visitavam os progenitores em lares de terceira idade.
“Hoje será um bom dia”, disse ele.
“Isto está a ficar um pouco piegas”, disse ela.
E o coração dele falhou um batimento.
Ele abriu o sobretudo. A pulsão dela foi tão poderosa e veloz como a dentada de um bicho: arrancou-lhe o coração outra vez. Ele saiu para a rua e sentou-se nos degraus. Estavam de volta a neve e o frio. Levantou as golas do sobretudo, pegou num cigarro e, com ele na boca, percebeu que não tinha lume. Ela apareceu na janela e atirou-lhe uma carteira de fósforos. Conseguiu acender o cigarro depois de cinco fósforos e olhou para cima, onde ela lhe dizia adeus.
Puxou o fumo e sentiu os pulmões substituindo os prazeres do coração.
Talvez regresse, em pouco tempo e com efeitos definitivos, para recuperar aquilo que é seu.
Uma dia vamos olhar para a proibição da adopção de crianças por casais do mesmo sexo como olhamos hoje para as placas que, em tempos, diziam: "White only."
Chegas quando a tarde se enlaça na noite e há nuvens de mosquitos, como chuva, na contra luz dos candeeiros públicos. Chegas como se saída de um carro de outra época, uma época certamente bela, porque tens cabelo negro de espia ou dançarina de cabaret ou apenas de menina maldosa.
Chegas com um vestido preto e ténis que, com certeza, compraste em Berlim. Deves ter amigos artistas e designers e já beijaste mulheres na boca - ou pelo menos gostarias.
No bar de sucos, os empregados têm a gordura dos fritos na pele; os clientes estão de bermudas e areia nos pés. Mas tu aproximas-te do balcão como se no intervalo da ópera - em vez de champanhe, pedes um açaí.
"Pouco xarope, mas pouquinho mesmo."
E imagino que talvez sejas uma fanática da linha, uma comedora exclusiva das coisas que nos fazem bem, uma chata. Não é apenas isso, é a forma como as unhas vermelhas, há segundos enigmáticas como uma cicatriz, de repente parecem vulgares unhas vermelhas porque apenas se dedicam ao Blackberry.
E no outro lado do balcão, o empregado com cabelo de água oxigenada limpa a telinha do seu celular com um guardanapo, metódico como nunca foi na escola.
Os celulares mataram a solidão da espera. Será que já ninguém se senta num ponto de ônibus ou aguarda um açaí sem procurar a companhia dos outros navegadores da rede?
Ela saca do seu iPhone. Poderosa, ligada, antenada, dentro do esquema, mas fora da caixa. iPhone & Blacberry, a dupla de sucesso que a deixa mais enturmada com tudo. Mesmo tudo. Tudo, tudo, tudo.
Ela pergunta: "Tem Wi Fi?"
Tenho vontade de rir, mas não vou cuspir o suco de melancia. Amachuco o guardanapo que me limpou a boca e atiro-o para o lixo, pensando que podia dizer-lhe que há internet grátis ali ao lado, num shopping, ou então deixá-la enfrentar, sem ajuda de muletas electrónicas, a solidão mais apetecível do final do dia: comer um açaí num bar de sucos, ao balcão, ver os outros, respirar, sair da ondas hertzianas, estar apenas.
Apenas estar.
Despeço-me do moço do bar de sucos, olho para ela, bonita e dedicada ao Facebook no celular, e penso: o mundo virtual é cada vez mais um corta tesão.
Ou talvez seja apenas a sorte de viver numa realidade em que vou deixando de precisar de sucedâneos dessa mesma realidade. "A vida como ela é", declarou Nelson Rodrigues. Isso mesmo: a vida como ela é. No meu caso, e por isso agradeço, a vida empolgante como um livro de aventuras.
Garota do bar de sucos, encanto e desencanto, tão veloz como um post, tão passageira como um twitt, tão dispensável como uma aplicação.
A vida é bela, garota do bar de sucos, por vezes, a vida apenas como ela é, pode mesmo ser bela.
Um português acorda num domingo, no Rio de Janeiro, procurando a paz das ruas e um quiosque para comprar o jornal, mas em vez da placidez das manhãs de fim-de-semana depara-se com um grupo de legionários romanos, várias gatinhas, coelhinhas, diabinhas, e mais um sem fim de gente mascarada e agarrada a latas de cerveja. São os seguidores (mais de dez mil) do Bloco Suvaco do Cristo, que arranca da Gávea pelas oito da manhã. Nota: não é sequer Carnaval, falta uma semana para os festejos oficiais, mas há dias que o português percebeu uma alteração na cidade, na disposição dos cariocas, algo que vai mais além das imagens do Sambódramo, que ele viu, durante anos nas notícias da televisão em Portugal, algo que vai mais além da imagem batida da mulata ou das reportagens sobre os vips da TV Globo nos camarotes da Sapucaí.
Mais um episódio de grande qualidade do This American Life. Este mostra a crise europeia vista pelos olhos americanos. O que mais ficou: as declarações do braço direito de Delors, dizendo que todos sabiam, desde as conversações para o euro, que os gregos fabricavam números e que os alemães e os franceses só não os confrontavam por educação diplomática. Ele diz isto e ri-se e admite o ridículo da situação. Esta é a nossa Europa. Esta é a Europa em que todos são responsáveis (franceses e alemães também) e, como tal, deveria ser também uma Europa mais solidária - mesmo com aqueles a quem deixaram mentir.
Quando tudo falha, quando a terapia, a religião, os martinis duplos, a internet, a masturbação, as drogas, a família e o amor ficam aquém, é no vazio antes da luz, que a escrita mais parece a saída de emergência, o sopro do ópio, a viagem para o espaço. O escritor que, na génese do seu ofício, procura a liberdade absoluta, é também ele escravo da sua dependência e da crença que, quando tudo falha, só a escrita o salvará. É verdade. Entre os milhões de motivos que levam pessoas a escrever um deles, pelo menos, é comum a todos: gostem de mim.