domingo, 19 de fevereiro de 2012

Minha carne é de Carnaval, meu coração é igual


Um português acorda num domingo, no Rio de Janeiro, procurando a paz das ruas e um quiosque para comprar o jornal, mas em vez da placidez das manhãs de fim-de-semana depara-se com um grupo de legionários romanos, várias gatinhas, coelhinhas, diabinhas, e mais um sem fim de gente mascarada e agarrada a latas de cerveja. São os seguidores (mais de dez mil) do Bloco Suvaco do Cristo, que arranca da Gávea pelas oito da manhã.
Nota: não é sequer Carnaval, falta uma semana para os festejos oficiais, mas há dias que o português percebeu uma alteração na cidade, na disposição dos cariocas, algo que vai mais além das imagens do Sambódramo, que ele viu, durante anos nas notícias da televisão em Portugal, algo que vai mais além da imagem batida da mulata ou das reportagens sobre os vips da TV Globo nos camarotes da Sapucaí.

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Europa


Mais um episódio de grande qualidade do This American Life. Este mostra a crise europeia vista pelos olhos americanos. O que mais ficou: as declarações do braço direito de Delors, dizendo que todos sabiam, desde as conversações para o euro, que os gregos fabricavam números e que os alemães e os franceses só não os confrontavam por educação diplomática. Ele diz isto e ri-se e admite o ridículo da situação. Esta é a nossa Europa. Esta é a Europa em que todos são responsáveis (franceses e alemães também) e, como tal, deveria ser também uma Europa mais solidária - mesmo com aqueles a quem deixaram mentir.

Cenas que me passam pela cabeça



Quando tudo falha, quando a terapia, a religião, os martinis duplos, a internet, a masturbação, as drogas, a família e o amor ficam aquém, é no vazio antes da luz, que a escrita mais parece a saída de emergência, o sopro do ópio, a viagem para o espaço. O escritor que, na génese do seu ofício, procura a liberdade absoluta, é também ele escravo da sua dependência e da crença que, quando tudo falha, só a escrita o salvará. É verdade. Entre os milhões de motivos que levam pessoas a escrever um deles, pelo menos, é comum a todos: gostem de mim.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Homens que mijam em lavatórios e alguma literatura


É um tema meio secreto, pouco falado, mas há anos que me inquieta. Talvez tudo tenha começado com aquela bebedeira no primeiro jantar de turma da faculdade – bifinhos com cogumelos e vinho branco –, quando um colega resolveu, por sobrelotação da casa de banho, desgoverno alcoólico e aflição da bexiga, correr o fecho das calças e pôr-se a mijar para dentro do lavatório. Má sorte: foi apanhado pelo dono, arrastado para a vergonha pública da sala de refeições e atirado porta fora, enquanto tentava metê-lo para dentro das calças e sofria as dores de ter interrompido uma mijadinha a meio – os senhores que mijam de pé sabem do que falo.

Ou talvez tenha começado antes, quando li “A insustentável leveza do ser”, livro que a minha namorada começou a reler há uns dias. A dada altura perguntou-me: “Já leste?”

Eu respondi que sim e disse-lhe que uma das memórias que tinha desse livro era a conversa de um médico sobre os seus colegas de profissão que, como ele, preferiam mijar em lavatórios.

Mas nada disto se juntou dentro da minha cabeça até que, por acidente, encontrei na internet uma citação de Charles Bukowsky:

“Sometimes you just have to pee in the sink.”

Talvez exagere, talvez seja defeito de escritor que procura (inventa e força) verdade e beleza e sentido em tudo o que encontra pelo caminho, talvez nada disto tenha a importância que lhe atribuo. Mas quando li a frase do Bukowsky percebi, mais uma vez, a importância da literatura. Numa simples sequência encadeada de palavras, ele oferecia-me o final para a minha história de mijadores em lavatórios, dava-me uma epifania cheia de verdade, as palavras no osso, e até um certo humor que, arriscando-se a roçar o mau gosto, ascende muito acima da piada de casa de banho.

Mas de nada me interessam explicações. Antes pelo contrário. Sometimes you just have to pee in the sink. Está dito e redito. Para quê explicar, esmiuçar, ir procurar razões pelas quais os homens (quantos?) resolvem mijar em lavatórios ou se o fazem com mais frequência quando estão bebedos? Isso é trabalho para os jornais e para os cientistas da sociedade. O que importa é o estrondo, a clarividência e a identificação provocada pela simples frase:

"Sometimes you just have to pee in the sink."

Não faz todo o sentido?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

The boceta kid




Antes

Pedrinho foi ver um Benfica Porto lá no boteco do Joaquim, na Cupertino Durão, fodido da carteira e sem um rolé de cama há meses. Mudara-se do Porto para o Rio com perspectivas de emprego e um filme editado na cabeça: mulheres morenas, de pernas malhadas e marcas de biquíni; mulher loiras com lábios devotos ao sexo oral e tanta ternura depois, como malícia antes; mulheres mulatas, japonesas, negras como o café da manhã, mulheres que compensassem a sua adolescência casta e a idade adulta com pouca quilometragem – três namoradas, duas visitas a prostíbulos do Porto.

Pedrinho era do Boavista e estava-se a cagar para o jogo. Tinha combinado com JP, um belenenses com cartão de sócio, que também dispensava o clássico, mas que gostava de cervejas baratas e confusão ao fim da tarde. Sem prestarem atenção no ecrã ou sequer nos outros portugueses com cachecóis ao pescoço e “filhadaputa” na ponta da língua, JP e Pedrinho puseram-se a sorver cachaças e chopes, acabando, como sempre, dedicados ao tema que mais desassossego provocava a ambos: boceta.

“Eu sou movido a boceta, tenho de admitir. O meu motor de arranque são gajas. Sou assim desde pequeno, não consigo estar num bar só com homens, fico inquieto.” JP interrompeu o discurso e ficou a olhar para uma milf que regressava da praia comendo um picolé. “Estás a ver o que te digo. Basta sair à rua. Sabes o que disse Buñuel?”

“O toureiro?”, perguntou Pedrinho.

“O gajo do cinema, que fez aquele documentário sobre os pobrezinhos ali perto de Salamanca, e que matou uma cabra para tornar aquilo mais dramático.”

“Não faço ideia.”

“Caga nisso. O Buñuel tinha 70 anos e disse: ‘Com esta idade ainda não me livrei do tirano.’ Entendes? Isto é uma tirania.”

“Não entendo.”

“O sexo, a boceta, o pau duro, um gajo ir ao supermercado e entrar no corredor dos produtos de beleza só porque viu uma gaja boa passar.”

“Que romântico.”

“Por falar nisso. Quantas quecas é que já te valeu esse romantismo desde que aterraste no Rio?”

“Não sou como tu. Não gosto de pegação. Não é a minha cena.”

“Tu és um mestre Jedi. Como é que consegues suportar os meses de abstinência?”

“Nunca ouviste dizer que a espera intensifica o prazer.”

“Essa foi a coisa mais gay que te ouvi dizer nos últimos dois dias.”

“Estou aborrecido.”

“Jogo de merda.”

“E tu, tens triunfado?”

“Ontem foi lá a violinista a casa.”

“E então?”

“Foi fixe. Mas acho que não vou repetir.”

“Terceira vez?”

“Quarta.”

“Bate certo, é o teu padrão.”

Pedrinho foi ao banheiro, as solas das havaianas chapinharam na película de mijo e água e papel higiénico. Balançando diante do urinol, pôs-se a pensar que, quando saísse daquele boteco e entrasse na rua, tudo iria mudar. De peito inchado pela confiança da cachaça, almofadado pelo airbag alcoólico e sem medo da rejeição, Pedrinho decidiu que o que tem de ser tem muita força, acabavam-se ali as longas conversas e o cavalheirismo, ia partir directo para a sacanagem, pegação a toda a ordem, vamos varrer geral.

Depois pensou no conselho que JP lhe dera, semanas antes, durante uma festa: “Tens de saltar-lhes à boca. Não digas nada. Chegas lá e saltas-lhes à boca.”

Pedrinho voltou a terra firme e passou pelas mesas do boteco, olhou as mulheres susceptíveis de serem beijadas após três cachaças e seis chopes (60 por cento das presentes), imaginou-se a saltar à boca de uma delas.

Mas logo se acagaçou, pensando que agarrar uma mulher, sem “com licença” ou “por favor”, e meter-lhe a língua na boca, era missão para os rangers de Lamego ou os forcados de Santarém.

Pedrinho estava habituado a cafezinhos e mais cafezinhos antes de receber um beijo nos lábios. Lidava melhor com programas tradicionais: cineminha no dia que era mais barato, lanches em pastelarias, um pé de dança numa discoteca e férias na loucura de Vilamoura – localidade onde, depois de muita insistência de Pedrinho e outros tantos copos de sangria, a sua namorada se masturbou para ele, pela primeira vez, em sete anos de relação. Nunca se falou no assunto. Muito menos se repetiu a prática.

No boteco era diferente. Tudo era possível. Pedrinho sentou-se e informou JP da epifania resultante da sua visita ao banheiro.

“Eu sou como um jogador de futebol brasileiro na Europa, mas ao contrário.”

“Come again?”

“Não se diz que, por vezes, os jogadores brasileiros levam tempo a adaptar-se ao futebol europeu?”

“Ya.”

“O mesmo acontece comigo aqui, mas no campeonato do engate. Eu estou num processo de adaptação, mas chego lá.”

“É isso que eu gosto de ouvir. Hoje vais ser o Ronaldinho e eu o Ronaldo Fenómeno.”

“Não posso escolher outro?”

“Ok, podes ser o Mozer.”

No intervalo do jogo pagaram a conta e caminharam para lado nenhum. JP falava como numa palestra:

“Tem tudo a ver como a forma com encaras o determinismo biológico do teu género. Nós fomos feitos para espalhar a semente e um dia podemos até ficar obsoletos, mas enquanto aqui estivermos é melhor aceitar esta tirania do que reprimi-la. O sexo faz muito bem à saúde. Tens ideia da quantidade de doenças que a prática continuada de sexo previne?”

“Sífilis? Sida? Gonorreia?”. Pedrinho estava mais solto, esta seria a sua noite.

JP pegou no telemóvel, levantou uma mão para que Pedrinho se calasse, e abriu o livro da lábia chapa cinco:

“E aí, bonitinha, onde você anda? Está com amigas?”


Depois

Pedrinho apareceu no quarto de JP a meio da manhã, abriu as cortinas com intenção de causar danos nas córneas do amigo, e começou a desaparafusar o aparelho de ar condicionado. JP sentou-se na cama:

“O que estás a fazer aqui a estas horas?”

“Não sou eu, é o tirano.”

“Como é que entraste?”

“O tirano convenceu a tua companheira de casa que era um assunto urgente.”

Pedrinho já ia no quarto parafuso quando JP reparou na caixa de ferramentas.

“Que merda é esta?”

“O tirano veio cobrar. Uma das tuas amigas acabou lá em casa. A meio da noite pediu-me duzentos reais mais dinheiro para o táxi. Quando disse que não, que não tinha acordado nada com ela, apareceu-me um negão lá em casa.” Levaram-me o ar condicionado como garantia de pagamento.”

JP saltou da cama, abriu os braços em louvor ao universo.

“Tu não percebes? Tudo mudou. Olha para ti, cheio de auto-confiança. Entras aqui, nem se nota que estás de ressaca. Todo decidido. Tiras o ar condicionado da parede, falas alto, estás mais contundente. Não percebes o que está a acontencer? Isto é coisa de Mr. Miyagi, wax on, wax off. Tu estás finalmente preparado. Os teus níveis de masculinidade estão a bater ferros. As mulheres adoram isso.”

Pedrinho pousou o ar condicionado na cama. De facto sentia-se mais pujante desde que estivera com aquela mulher. O tirano precisava de ser alimentado.

JP enfiou-se nuns calções de banho. Não vestiu t-shirt: “Agora é uma questão de continuarmos com o programa de treinos. Vamos lá beber um suco à rua.”

Pedrinho olhou o amigo: “Achas mesmo que a minha sorte vai mudar?”

“E eu alguma vez te ia mentir sobre uma coisa destas?”

“Então vai andando que eu vou montar o aparelho outra vez.”

“Faz isso. Olha, tens aí vinte reais que me emprestes? Nice. És um bacano. E não te esqueças: wax on, wax off.”

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Casa



“Vê se vês terras de Espanha
areias de Portugal
olhar ceguinho de choro.”


para Gonçalo Salgado


Não lhe chamemos visão que, de místico, isto não tem nada. Digamos antes que, na ribanceira do sono, me apareceu a memória de algum lugar onde já estive sem saber ao certo qual. Era uma rua de pedra, uma rua cor de terra como só há em Espanha, com luzes acesas nas casas, nos bares, nos corações da gente callejera que oferece cigarros e bebe e conversa até altas horas. Um desses lugares onde parávamos nas viagens pelo sul da Europa, comendo franguinhos assados numa pensão para poder beber cervejas em discotecas da moda. Por exemplo, o fiasco de um final de ano em Cáceres, com baratas a subir as paredes de um bar – Faunos – que rapidamente se revelou um prostíbulo da subcave do bas-fond, o que levou um dos nossos amigos a disparar porta fora receando as investidas de uma marroquina que, até hoje, suspeitamos chamar-se Muhammad ou mesmo José Luís. E aquela estação de comboios onde se comiam churros a desoras, o portuga da malandragem que nos serviu de guia e que, soube-o anos mais tarde, montou um negócio de sites porno. E a erva de produção caseira, transportada numa lata de Herbalife, quando eu ainda não fumava – soubesse o que sei hoje e esses dias em Cáceres teriam sido muito mais doces, mais de fumo e risota imparável.

Esta semana falámos, por email, e quando tu devias ir deitar os teus filhos e eu devia estar a cozinhar os bifes de frango, estávamos antes a trocar emails disparatados exactamente como quem troca piadinhas na aula de Biologia da Dina – numa dessas aulas, com a barriga em desarranjo, fui duas vezes à casa de banho para, no regresso, ouvir o coro: “Cagão, cagão”. Tenho a certeza que também gritaste. Eu teria feito o mesmo.

Nesses emails falámos de trabalho mas logo te puseste a dizer que tinhas um treinador igual para cada um dos nossos amigos – e até foste buscar o Marinho Peres ao fundo do baú.

O que ter quero dizer é isto: esqueci-me, durante muitos anos, o que era uma casa. Sabes que andei por aí, de cidade em cidade, de pessoa em pessoa, dizendo que a minha vida cabia em duas malas de viagem, um slogan de t-shirt que achava tão dogmático como acessório para conversas de engate. Talvez seja da idade, talvez seja o segundo acto disto que andamos para aqui a fazer, talvez tenha sido o inferno de alugar um apartamento no Rio, quatro meses e cinco casas depois, um nomadismo que me traumatizou, fui enganado, enrolado, fiquei especado, perdi, preyboy.

Mas exactamente no dia do teu aniversário, entro por fim na casa onde viverei, espero, por uma longa temporada. É um dia importante para mim, o céu amanheceu tão azul que uma nuvem se dissolveria caso arriscasse aparecer no horizonte. Uma daquelas manhãs em que sabemos que tudo rolará impecavelmente, manhãs com o mesmo aroma das manhãs de praia quando éramos crianças e a maré baixa era campo de futebol, cenário de guerra de areia, território de piscinas. Numa manhã destas sabe bem ter uma casa, ser parte de um bairro, falar com o vizinho quando vamos ao pão, como aconteceu há umas horas, assim que pus o pé na rua e me lembrei que era o teu aniversário.

Nessa viagem matinal pensei em ti e soube, já o sei há algum tempo, que ter uma casa me fazia falta. E não falo apenas do apartamento na Gávea que, espero, visitarás e onde repetiremos as mesmas histórias de sempre – os estaladões do professor de francês Sales Gomes, o capotanço de tequila algures no Algarve, as desventuras do Guilherme Pancadas, do Fernando Jabum, do senhor Herculano que tomava conta dos balneários e transpirava bagaço.

Não falo apenas do meu apartamento. Falo de todas essas coisas, das conversas sobre o Marinho Peres às cenas de pancadaria com forcados de Santarém, mas também aquilo que, ao longo dos anos, por orgulho macho ou apenas porque sim, não foi preciso dizer.

É nas tais ruas de Espanha que cruzámos vezes sem conta de copo na mão e a esperança de algo extraordinário, no pelado do Vale de Santa Rita onde as tuas qualidades de central incluíam golos em cantos e pontapés de canela, nos reencontros em que a parvoíce é o veículo de comunicação mais usado, nas recordações do senhor António da mercearia, que conduzia de cabeça à banda, do senhor Henrique, que nos treinou com a famosa táctica do fole, do setôr Bagaço, que mandou a turma inteira para a rua, é em tudo isso que também se encontra agora alicerçada a minha casa.

Talvez tenha sido necessário ter viajado milhares de quilómetros, durante anos, para perceber a importância de um porto de abrigo. Tu já o sabias muito antes de mim.

Parabéns, com cadeiras pelo ar e gajos pendurados nos candeeiros.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sport Lisboa e Ipanema


Quem rola pelo calçadão de Ipanema pode ver a bandeira do Benfica desfraldada no areal, no conhecido e apregoado Posto 9, entre a Rua Vinicius de Moraes e a Farme de Amoedo. Fosse a praia carioca um bairro lisboeta e estaríamos no Chiado.
Em vez de miúdas descendo a Rua Garrett temos garotas de biquíni, em vez de pastelarias e lojas de cadeias internacionais, temos panteras negras - caipivodka black com fruta - e sportings no menu da barraca do Chico, que desde dezembro passou a ser também a barraca do Sport Lisboa e Benfica no Rio de Janeiro.

Encontro-me com os produtores desta ideia quando o Sol está a pique e as havaianas fervem na calçada. Diogo Anjos e João Viana Ruas descem comigo para o areal, cumprimentam Chico, o dono da barraca, e Diogo questiona um dos empregados: "Galo, você viu os vídeos do Benfica que postei no Face?"
Um guarda-sol montado e três cadeiras na sombra depois, Diogo e João, amigos há cinco anos e companheiros de negócios no Brasil, começam por pedir sportings. A explicação aparece no cardápio que Galo me entrega: "Sporting: garrafa de água, ou seja, não faz mal a ninguém."


O resto do texto poder ser lido no site do Dinheiro Vivo.